A morte sempre foi uma certeza e um mistério. A certeza se deve ao fato de que ela poderá chegar em cinco minutos ou menos. Um tiro, uma queda, um choque elétrico; o coração que para de repente. Motivos? Escolha um. E o mistério está no que há — há? — depois que ela acontece. Os religiosos procuram conforto na sua fé. Os materialistas ateus são mais simplórios e diretos: é o fim de tudo. O corpo, depois de um certo tempo, será reduzido a um punhado de ossos, sete palmos abaixo da terra. Quem pode, manda erguer um monumento a si próprio, como atestado da sua passagem pela Terra. E, quanto aos que preferiram ir para o forno, resta ainda menos: o pó. Do pó ao pó. É o que a Bíblia diz — está em algum versículo entre o Gênesis e o Apocalipse –. Eu não contesto, nem subscrevo.
E há os que se beneficiam da dúvida. De ateus convictos quando jovens, bonitos e saudáveis, vão se ligando ao Criador à medida em que a idade e as doenças apresentam a fatura. O homem é um fraco, embora passe a vida toda demonstrando o contrário. Filosofias mil, ervas, tai-chi-chuan, sexo tântrico, veganismo, e a última moda gastronômica importada de Miami falham, assim, pura e simplesmente. E não adianta procurar o Dr. Pitanguy, nem o Dr. Rey, pois, pele esticada não prorroga o tempo de vida. Melhor gastar os seus dólares na melhoria da vida de quem precisa e está ao seu alcance. Acredite, você vai morrer bem feliz e com pouco ou nenhum sentimento de culpa.
A verdade é que somos ilhotas de vida cercadas de morte por todos os lados. Há quem pense que a vida é um acidente. Ou uma concessão divina. E, quem sabe, vinda do espaço sideral. Não tem jeito, eu e você seremos abraçados por ela um dia. Batamos na madeira três vezes; que ela não tenha pressa. Enquanto a dita cuja não vem, o melhor a fazer é viver e deixar viver.
São muitas as culturas que reverenciam ou sacaneiam a morte, através de rituais bizarros ou irreverentes à moda mexicana. Mas, se focarmos na cultura que nos é mais familiar — a do Rock — podemos crer que a morte é um personagem quase sempre onipresente. Morre-se de amor ou de ódio. Ela é arroz de festa no universo do Heavy Metal e seus subgêneros. Por outro lado, muitos de nossos heróis e heroínas baixaram à sepultura cedo demais. Convenhamos: Janis Joplin, Jimi Hendrix, Keith Moon, Jim Morrison, Kurt Cobain, John Bohan, Raul Seixas, Chorão & Champignon, Amy Winehouse, Cássia Eller, e outros & outras facilitaram a coisa. É fato.
Vamos ficar no terreno do rock. Lou Reed, o amado e odiado compositor, guitarrista e cantor, é um sobrevivente, isso é óbvio. Todavia, em 71 anos de vida ele flertou com a morte muitas vezes. Ele percorreu o caminho do excesso. Presume-se que tenha encontrado o Palácio da Sabedoria. De um modo ou de outro, o fundador do Velvet Underground viu muitos de seus amigos & amigas sucumbirem sob as mais diversas condições, quase sempre tendo como ponto comum as drogas e a violência. Cite-se também o HIV. Reed viveu sob todos os extremos do ego e das bad trips. Sobreviveu para contar a história. Recentemente recebeu um fígado usado, mas em bom estado. Não se pode especular se o autor de Heroin chegou a esse ponto em decorrência de sua vida extremamente rock and roll, como se cada dia fosse o último. Seja em sua fundamental Velvet Underground, ou em carreira solo, a morte é citada com relativa frequência. Contudo, Lou Reed não é um cultuador do “desta para melhor”, apenas reflete uma situação comum a todas as pessoas, tanto é que dedicou um álbum inteiro ao tema.
Em 1992, já dono de biografia e discografia respeitáveis, Lou Reed lançou Magic And Loss, o álbum conceitual cujo tema central é, claro, a morte. O álbum é dedicado a duas pessoas do círculo íntimo do rock star: o compositor de R&B Doc Pomus (1) e uma certa Rita (2). Também há um terceiro homenageado, não creditado no disco: Lincoln Swados (3) [irmão da escritora Elizabeth Swados], amigo de Lou desde os tempos da Universidade de Syracuse. Lincoln era portador de esquizofrenia, cuja morte violenta em 1989 sensibilizou bastante o autor. No entanto, ao contrário do que o tema sugere, Reed não faz no álbum o uso da morbidez, tampouco fez uso de lugares comuns típicos do Heavy Metal. Por outro lado, pelo que se pode depreender, a morte não é nem tratada de forma reverente, mas sim como uma certeza, um fato, que afeta qualquer pessoa que tenha perdido pessoas queridas, não necessariamente apenas parentes.
As quatro primeiras canções de Magic and Loss deixam claro o propósito da fazer pensar, considerar possibilidades óbvias, comparar situações nas quais nossos queridos & queridas — e até mesmo nossos desafetos — pereceram. Ao longo de todo álbum, como é da natureza de Lou Reed, há espaço para algum sarcasmo e pitadas de humor negro à moda do Velvet Underground, o que torna o álbum um dos melhores lançamentos da década de 90.
Na faixa de abertura, “What’s good — The Thesis” [O que tem de bom — A tese], Lou questiona o sentida da vida: “A vida é como um refrigerante de maionese / E a vida é como o cosmos sem espaço / E a vida é como bacon com sorvete / Isso é a vida sem você”. Após alguns versos, nos quais faz comparações absurdas, Reed conclui: “O que tem de bom? / O que tem de bom? / Não muito mesmo / A vida é boa – / Mas nem um pouco justa“. Isto resume na pergunta que fazemos, sempre que um dos nossos parte: Por quê logo ele, e não aquele ditador filho da puta, que matou cinquenta mil de fome no ano passado?
Mais adiante, em “Power and glory — The Situation” [Poder e glória — A Situação], uma constatação angustiante, cruel: “Vi um homem virar uma criança pequena / O câncer reduzi-lo a pó / Sua voz enfraquecendo enquanto lutava pela vida / Com uma bravura que poucos homens conhecem / Vi isótopos serem introduzidos em seus pulmões / Tentando deter o avanço canceroso”. É evidente o declínio do corpo ante a doença e a quimioterapia(?), que vão minando dolorosamente as forças que ainda lhe restam. Impotência e irreversibilidade da morte, juntas.
Em “Magician” [Mago], um homem lamenta-se em desespero ao mago [Deus? Um espírito? Um anjo?] da sua condição: “Quero um pouco de magia que me mantenha vivo / Quero um milagre, não quero morrer / Tenho medo de dormir e nunca mais acordar / De não mais existir / (…) Por dentro sou jovem e lindo / Tanta coisa inacabada / (…) Doutor, o senhor não é mago — e eu não tenho fé / Preciso de mais do que a crença pode me dar agora / Quero acreditar em milagres — não apenas nos números / Preciso de um pouco da magia que me leve daqui”.
Já em “Sword of Damocles — Externally” [Espada de Dâmocles – Externamente], o personagem da mitologia grega, cuja figura simboliza a falibilidade do poder e das consequências de uma decisão errada, ilustra bem uma situação que pode significar a vida ou a morte: “Vejo que a espada de Dâmocles está bem sobre tua cabeça / Estão tentando um tratamento novo para te tirar da cama / Mas a radiação mata tanto o mal quanto o bem / Ela não sabe diferenciar / Então para te curar eles precisam te matar / A espada de Dâmocles sobre tua cabeça”.
Nas faixas seguintes nada se perde. A narrativa ganha contornos elegíacos e constantes convites à reflexão, sob a forma de algum humor & alguma poesia. Não há mentira. Aos poucos o título do álbum vai fazendo sentido. E, após todas as revelações, o ouvinte conclui que a vida pode até ser boa, mas nem um pouco justa.
(1) Doc Pomus (1925-1991): compositor norte-americano. Autor de muitos hits nos anos 50 e 60, gravados por Elvis Presley, The Drifters, entre outros.
(2) Rotten Rita [Kenneth Rapp] (? – 1991): transexual frequentador da Factory de Andy Warhol.
(3) Lincoln Swados (? – 1991): Lou dedicou ao amigo as músicas Home of The Brave, do álbum Legendary Hearts; My Friend George, de New Sensations; e Harry’s Circumcision – Reverie Gone Astray, presente em Magic and Loss.
Magic And Loss
Lou Reed
Lançado em: 14 de Janeiro de 1992
Gravado em: 1 a 27 de Abril de 1991
Estúdio: The Magic Shop, cidade de Nova York
Produtores: Lou Reed, Mike Rathke
Faixas:
1. Dorita (The Spirit) 1:07
2. What’s Good (The Thesis) 3:22
3. Power And Glory (The Situation) 4:23
4. Magician (Internally) 6:23
5. Sword Of Damocles (Externally) 3:42
6. Goodby Mass (In A Chapel Bodily Termination) 4:25
7. Cremation (Ashes To Ashes) 2:54
8. Dreamin’ (Escape) 5:09
9. No Chance (Regret) 3:15
10. Warrior King (Revenge) 4:27
11. Harry’s Circumcision (Reverie Gone Astray) 5:29
12. Gassed And Stoked (Loss) 4:18
13. Power And Glory Part II (Magic • Transformation) 2:57
14. Magic And Loss (The Summation) 6:39
Texto publicado na 6ª edição da revista digital “Pi2 (Politicamente Incorreto Ao Quadrado)“, 4 de Outubro de 2013
Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista impressa Gatos & Alfaces.
