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O Livro de Poesia Que Ninguém Consegue Terminar

Ontem, enquanto navegava pelo Facebook em uma dessas jornadas despretensiosas, topei com uma postagem que me deixou intrigado. Era algo sobre um livro que ninguém jamais conseguirá terminar de ler, mesmo que tenha apenas dez páginas. Dez páginas! Confesso que a curiosidade me puxou pela gola como um velho amigo ávido por contar um segredo. Li e reli o texto, tentando absorver a ideia. “Cent mille milliards de poèmes”, era o nome. Nunca tinha ouvido falar desse tal livro, mas as possibilidades matemáticas mencionadas na postagem eram absurdas: cem trilhões de combinações poéticas. Parecia um enigma saído de um sonho de Borges.

Tinha que saber mais, então, claro, abri o Google e comecei a pesquisar. Cem Mil Bilhões de Poemas (título original em francês: Cent Mille Milliards de Poèmes) é um livro do escritor francês Raymond Queneau, publicado em 1961. O livro é um conjunto de dez sonetos impressos em cartão com cada verso em uma tira separada. Como todos os dez sonetos não têm apenas o mesmo esquema de rima, mas os mesmos sons de rima, quaisquer linhas de um soneto podem ser combinadas com qualquer uma das outras nove, permitindo 10 elevado a 14 (= 100.000.000.000.000), ou seja, Cem trilhões de poemas diferentes. Quando Queneau teve problemas para criar o livro, ele solicitou a ajuda do matemático Francois Le Lionnais e, no processo, eles iniciaram a Oulipo (Oficina de Literatura Potencial).

Raymond Queneau, o autor tinha um humor peculiar. Ele calculou que, se alguém quisesse ler todos os poemas, dedicando quarenta e cinco segundos para cada um e mais quinze para virar as tiras, levaria aproximadamente duzentos milhões de anos para completar a tarefa. Duzentos. Milhões. De. Anos. Isso, claro, considerando que essa pessoa não fizesse pausas para comer, dormir ou refletir sobre o significado da existência humana diante de um desafio tão monumental quanto fútil.

Impressionado, imaginei o ato de leitura se transformando em uma experiência quase cósmica. Pensei na imensidão do tempo que cada poema carrega. Mesmo que alguém viva 100 anos, 1.000 anos, não tocaria nem na superfície do que o livro tem a oferecer. É como se Queneau tivesse aprisionado o infinito em um objeto finito. Cada combinação que fazemos entre os versos resulta em um soneto perfeitamente estruturado, com rima e ritmo impecáveis. Como isso é possível? E mais: como é que nunca soube disso antes?

Resolvi continuar minha investigação. Descobri que “Cent mille milliards de poèmes” é mais do que um livro; é um desafio, um conceito, uma provocação. Queneau brincava com a ideia de autoria e criação literária. Quem, afinal, é o verdadeiro autor de um poema que depende da combinação aleatória do leitor? E o que significa “ler” nesse contexto, quando cada leitura é única e irreproduzível? Não seria essa a metáfora perfeita para a vida, onde cada escolha é uma linha que nunca mais se repete?

Queneau criou não apenas um livro, mas um universo literário. Um paradoxo em si: algo infinitamente grande, derivado de algo infinitamente pequeno. Não pude deixar de pensar no impacto que isso teria em outros campos. Na física quântica, por exemplo, onde se fala de superposição e realidades paralelas, o livro funciona como uma espécie de multiverso literário. Cada combinação de versos é como um estado quântico, uma possibilidade que só colapsa em realidade quando lida.

Em jogos, “Cent mille milliards de poèmes” é o avô das narrativas interativas. Você escolhe o que vai ler, compondo sua própria história a partir das opções oferecidas. Parece quase rudimentar comparado aos games modernos, mas a essência está lá: liberdade limitada por regras predefinidas. E há ainda a literatura digital e o hipertexto, que emprestaram do livro de Queneau a ideia de uma leitura não linear, onde cada decisão cria uma experiência única para o leitor.

Ao continuar explorando, fui tomado pela dimensão filosófica do livro. Ele desafia a noção de autoria. Roland Barthes, em “A Morte do Autor”, argumentava que a obra pertence ao leitor, não ao criador. E aqui isso não poderia ser mais verdadeiro: Queneau fornece os elementos, mas é o leitor que cria o poema.

A simplicidade de sua estrutura – 10 páginas, 14 versos – gera uma complexidade que escapa à compreensão humana. A dimensão temporal também não passa despercebida. Ler todos os poemas é tão inalcançável quanto explorar todo o cosmos.

Havia algo profundamente provocativo nesse projeto de Queneau. Ele subverte a ideia do livro como um objeto finito, uma narrativa com início, meio e fim. É um desafio à nossa obsessão por completude. Vivemos em um mundo onde tudo precisa ser consumido e concluído, de maratonas de séries a listas de afazeres. Mas aqui está uma obra que não pode ser completada. Você não a domina; apenas participa dela, como um grão em um deserto infinito de possibilidades.

Depois de horas de pesquisas, incontáveis abas abertas no navegador e até mesmo um bate-papo com a inteligência artificial que me ajudou a organizar esses pensamentos, percebi algo. O que realmente me fascinou não foi apenas o gênio matemático de Queneau, nem a profundidade filosófica de sua obra, mas a ideia de que, mesmo em uma época onde tudo parece estar ao alcance de um clique, ainda podemos nos surpreender. Ainda há mistério. Ainda há infinito.

Queneau, ao criar essa obra, conectou literatura e ciência de forma magistral. Ele usou a estrutura dos sonetos, que seguem regras rígidas, como base para uma explosão de possibilidades. A poesia, tão associada à subjetividade e ao emocional, encontrou na matemática sua cúmplice mais improvável. E pensar que tudo isso veio de um autor que também tinha formação em filosofia e álgebra! É como se Queneau tivesse encontrado a fórmula secreta para unir as duas faces do cérebro humano.

A ideia de combinações infinitas em literatura não é nova. Pensei em Borges e sua “Biblioteca de Babel”, um lugar que contém todos os livros possíveis, desde os mais coerentes até os completamente caóticos. Mas, ao contrário de Borges, que mergulhava no desespero do excesso de possibilidades, Queneau parece celebrar essa abundância. Seu livro não é um labirinto sem saída; é um parque de diversões literário, onde cada nova leitura é uma aventura inédita.

Depois de conhecer essa história, não consegui evitar pensar no que isso significa para o leitor comum. Estamos tão acostumados com narrativas lineares, com inícios, meios e fins claros, que um livro como “Cent mille milliards de poèmes” parece um alienígena em nossas prateleiras. Como interagimos com algo que não tem final? Que não pode ser “concluído”? Talvez a resposta esteja em mudar nossa abordagem. Não se trata de “terminar” o livro, mas de desfrutar cada poema que criamos nele, sabendo que aquela combinação específica talvez nunca tenha sido lida antes e talvez nunca seja lida de novo.

Também me questionei sobre como esse conceito ressoa em outros aspectos da vida. Quantas vezes tentamos “completar” algo que, na verdade, nunca foi feito para ser completo? Relacionamentos, carreiras, sonhos… Será que estamos sempre buscando a conclusão quando, na verdade, deveríamos apenas estar presentes no momento, no verso único que se apresenta diante de nós?
Cada vez mais fascinado, li artigos em sites na Internet, assisti a vídeos, mergulhei em fóruns obscuros onde outros leitores discutiam suas experiências com o livro. Descobri que há pessoas que dedicaram anos a explorar suas combinações favoritas, transformando a leitura em um projeto de vida. E ainda assim, ninguém, absolutamente ninguém, chegou perto de esgotar suas possibilidades.

No final das contas, “Cent mille milliards de poèmes” não é apenas um livro. É um convite. Um lembrete de que a arte, a literatura e a vida são feitas de combinações infinitas, de possibilidades que nunca se repetem. E talvez seja exatamente isso que as torna tão preciosas.

A versão original em francês do livro foi projetada por Robert Massin. Duas traduções completas para o inglês foram publicadas: as de John Crombie e Stanley Chapman. A tradução de Beverley Charles Rowe, que usa os mesmos sons de rima, foi publicada online. Em 1984, a Edition Zweitausendeins em Frankfurt publicou uma tradução alemã de Ludwig Harig. Em 2002, a Moscow publicou uma tradução russa de Tatiana Bonch-Osmolovskaya.

Em 1997, uma decisão judicial francesa proibiu a publicação do poema original na Internet, citando o direito moral exclusivo da propriedade de Queneau e da editora Gallimard.

Não há, nunca houve, e possivelmente nunca haverá tradução para o português.

27/12/2024

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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Celso Moraes F
Celso Moraes F
27/12/2024 14:54

Sabe o amigo que sou um leitor voraz. Tive a ventura e vivi a aventura de trabalhar por quatro anos como Bibliotecário Municipal em minha cidade natal, período em que li tudo o que havia de interessante naquele acervo, que não era pequeno. Tenho minhas próprias biblioteca e gibiteca, e além do que possuo já li milhares e milhares de obras. Amo escrever e desenhar, mas creio que mais do que ambos somados amo ler. Viajar nesse universo infinito em suas possibilidades — o que não significa em absoluto que eu queira desbravá-las. Isso nos leva a esse livro do Queneau.
Vi que o amigo se impressionou. Respeito seu gosto literário, que salvo algumas divergências é bem parecido com o meu. Mas, sinceramente, esse tipo de “façanha” não me diz nada e com certeza acho totalmente desprovido de graça. Eu leria os sonetos UMA VEZ. Se algo neles suscita o famoso “E SE…?”, isso ocorreria apenas na minha mente, e por curto tempo. Há tantos livros para se ler. Essa obra, em minha opinião, serve para entrar em algum Guinness, e pronto. Ou para acariciar o ego do autor, “Nossa, como eu sou genial!”…
Como disse, respeito seu entusiasmo. Respeito quem lê boas obras (não que essa seja ruim, eu leria — uma vez). Mas não me vi impressionado.

Genecy de Souza
Genecy de Souza
Responder a  BarataVerso
28/12/2024 18:51

Concordo com o seu comentário e o do Celso. Em 1961 esse livro foi uma façanha e tanto, e permaneceu nesse status por pelo menos quatro décadas, o que não é pouca coisa. Também amo livros — físicos, obviamente, embora nada tenha contra os digitais –, mas não me entregaria à missão de ir muito fundo no livro de Queneau, pois, ao menos no meu caso, a curiosidade inicial acabaria redundando em bocejos, para, depois de um certo tempo, revisitar tão inusitada obra, quem sabe, tentando viajar mais um pouco na proposta da obra. Cada leitor possui um modo de ser, pois cada um “sente” o livro conforme sua personalidade. Não quero, nem de longe, derrubar os méritos do livro, e muito menos do autor, que até 1 hora atrás nunca tinha visto mais gordo. Pelo que li no texto, é inegável, e ao mesmo tempo justificável, o seu entusiasmo pela proposta de Cent Mille Milliards de Poèmes, pelas razões do leitor apaixonado/inveterado que você é, e que as expôs muito bem.

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