Arte: Montagem de Barata Sobre Personagem Zé Gatão, Por Eduardo Schloesser

O Toque da Morte – Parte I

Zé Gatão podia contar nos dedos os seus poucos e sinceros amigos. Havia um em particular dos tempos da adolescência de quem não tinha notícias há muito tempo. A vontade de revê-lo fez com que tomasse um dos velhos e barulhentos ônibus de viagem de uma empresa que monopolizava esta rota, até a distante cidade de Knob, onde havia vivido com sua mãe por alguns anos.

Três dias depois, no meio da tarde, estava descendo na enorme estação rodoviária daquela vasta metrópole. Trajava uma camiseta branca de mangas curtas e gola em V fora da calça de brim azul escura, puída nas barras. Calçava uns tênis velhos pretos bastante empoeirados com um solado gasto que uma vez foi branco. Agora tinha uma tonalidade escura de tão encardido. Completando sua figura, trazia às costas uma mochila bem usada de cor vermelha com seus poucos pertences. O longo cabelo acinzentado como sempre amarrado em um rabo de cavalo que oscilava ao vento. Óculos escuros para proteger os olhos do sol tirânico! O astro-rei brilhando intensamente, em um céu azul sem nuvens! A aparência imponente e um pouco intimidadora do Gatão se sobrepunha a dos animais comuns! No entanto, os transeuntes apressados nem se davam conta do felino gris. Tal indiferença era normal em cidades grandes! Cada qual cuidava de sua própria vida!

Após tomar algumas informações, pegou um ônibus urbano e desceu em uma parada no chamado Bairro Oriental.

As ruas do bairro estavam bastante movimentadas. Havia lojas que vendiam diversos artigos do distante oriente e também barraquinhas com comidas exóticas em plena rua. Havia muitas lavanderias e restaurantes com ideogramas escritos na miríade de dialetos das diversas regiões da parte leste do mundo.

O felino taciturno se deteve diante de um pequeno restaurante, o qual lhe trouxe muitas recordações de uma época mais bucólica, irresponsável e aventurosa. Atravessou os umbrais da porta e penetrou em um salão onde reinavam o silêncio e a penumbra. As mesas estavam cobertas com toalhas alvas e muito limpas. Junto às mesas, cadeiras de espaldar alto formavam um conjunto que evidenciava o senso de organização daquele povo vindo de tão longe para se fixar no Ocidente. Zé Gatão ficou a recordar quantas vezes estivera ali em companhia do amigo que viera visitar, comendo, ajudando a lavar pratos, a servir fregueses ou a se esconder da polícia com este amigo, após suas muitas estripulias de adolescentes. Uma voz perguntando se desejava alguma coisa fez o felino cinzento se voltar sobressaltado. Em meio às sombras, reconheceu o rosto sorridente do vovô Lao que com sua grande sabedoria o ajudou no passado a suportar as turbulências do adolescer. O vovô apertou o comutador de luz e acendeu as lanternas vermelhas penduradas no teto. Logo os dois estavam abraçados em uma alegria calma como se tivessem se separado há poucas horas. Zé Gatão perguntou por todos. O bondoso velho pediu licença por um momento. Instantes depois, rostos familiares e queridos estavam à sua volta. Vovó Fei-min Lao, a senhora Mai-lee Lao, mãe de seu bom amigo Ching Lee Lao. Por sinal, estavam faltando Ching e seu pai, o senhor Chang Wen Lao.

A senhora Lao disse que Ching estava viajando a serviço, mas que chegaria dentro de uma semana. Quanto ao senhor Chang, havia morrido no mês passado e a tristeza que percebeu na voz da senhora Mai-Lee desencorajou o grande gato a fazer perguntas sobre o assunto. Zé Gatão olhou a todos com ternura. Típicos representantes de sua raça de felinos! Não eram muito altos. Os olhos eram de um azul profundo, corpo delgado de uma tonalidade entre branco e cinza. Orelhas afiladas e pretas. Os membros dianteiros e traseiros eram bem-proporcionados. Usavam túnicas coloridas de seda bem folgadas, amarradas à cintura por faixas que combinavam com a indumentária. As mangas do traje eram compridas e amplas. Nos pés usavam meias brancas e sapatos de pano de cor forte.

Gentilmente, convidaram Zé Gatão a se acomodar em uma das mesas e a tomar chá com eles. Conversaram amenidades, mas Zé Gatão sentiu a atmosfera pesada. Podia quase farejar o medo que havia no ar. Seus olhares eram furtivos, como se temessem algo. Sentiu vontade de perguntar o que estava acontecendo, mas conhecendo a natureza reservada daqueles felídeos, resolveu abster-se. Na hora certa conheceria a verdade. No princípio da noite se despediu, dizendo que procuraria um hotel ali no bairro mesmo. Recusou delicadamente, o convite de ficar com eles, Não queria dar trabalho. Assegurou que no dia seguinte estaria bem cedo no restaurante para ajudar no que fosse necessário. Escolheu um hotelzinho simples, não muito longe do restaurante. Não gostou da cara do atendente, um urubu careca de ar insolente. Resolveu trancar a porta do quarto. Seu sono sempre leve seria interrompido ao menor ruído. Mas contrariamente às suas expectativas teve uma noite de sono bastante tranquila.

No dia seguinte, o felino cinzento estava no restaurante bem cedo. Foi às compras com vovô Lao para renovar o estoque de gêneros alimentícios do estabelecimento, ajudou vovó Lao e a senhora Mai-Lee a preparar a comida, auxiliou os garçons a servir os pratos na hora do almoço. Tirou a mesa e lavou a louça. Todos o cumularam de elogios e agradecimentos. Acanhado, se retirou para o salão de refeições onde estavam entrando alguns fregueses retardatários. Era um grupo de cachorros turbulentos e mal encarados. Grosseiramente se sentaram nas cadeiras e gritando, exigiram serem servidos imediatamente. Zé Gatão percebeu medo nas atitudes dos garçons e um brilho significativo nos olhos do vovô Lao que saiu da cozinha atraído pelo alarido, denotou que não era a primeira visita daqueles canídeos de ar insolente. Timidamente, um dos garçons se aproximou da mesa onde haviam se aboletado os canídeos, querendo anotar o pedido. Um dos pretensos fregueses, um buldogue nanico de cara enrugada e charuto vagabundo entre dentes rosnou:

– Seu gato estúpido! Parece uma bichona! Anda logo, porra! Tô com uma fome do caralho! E você com esses passinho de oriental babaca vai chegá aqui só amanhã! Vamo! Mexe este maldito esqueleto! Puta que o pariu! – O pobre apressou-se e quase caiu em cima da mesa. O buldogue meio quilo o agarrou pela túnica e vociferou:

– Você é por acaso feito de bambu, seu bastardo?! Nem se guenta nas perna, porra! Eu e meus cupincha queremo comê um tal de Chop Suei que tá aqui neste cardápio cheio de garatuja que dá nó nus nosso miolo! Nós qué também umas cervas bem geladas! Aproveita e chama o velho Lao aqui! Queremo trocá umas ideia com o velhote! Anda! Seu piolho miserável! Raspa logo daqui! – A cachorrada caiu na gargalhada. Zé Gatão ficou olhando com desdém para aquele bando de idiotas!

Vovô Lao adiantou-se. O buldogue perguntou asperamente se Lao havia pensado na proposta. Em tom baixo e firme, o velho agradeceu, mas disse que não poderia aceitar tal proposta. O restaurante não estava à venda. Os cães se levantaram de maneira violenta, derrubando a mesa com toalha, pratos, copos e talheres. A um sinal do buldogue, avançaram nas outras mesas, derrubando-as e quebrando cadeiras. Vovô Lao ficou parado olhando tristemente a destruição. De repente, uma voz forte se fez ouvir em meio ao caos:

– Já chega, cães! Vocês já fizeram merda demais! Portanto, cês vão se mandar daqui rapidinho, ou eu vou expulsar vocês aos pontapés!

– Quem falou essa bosta?! – uivou o pequeno canídeo, se virando de brusco em direção ao som da voz!

– Ora, ora! De onde saiu esse gatão parrudo? – indagou um dos cães, debochadamente.

– Vamos enchê ele de porrada! – ajuntou o outro!
– Isso aí! Peguem ele! – latiu alto, o enfezado baixote, mastigando a ponta de seu charuto fedorento e de má qualidade!

Os caninos avançaram céleres, dispostos a dar uma boa lição aquele desconhecido. Como o buldogue era lento, atarracado e meio balofo, não participou do ataque. Os seus dois parceiros eram vira-latas forçudos e grandalhões. Cachorros ferozes acostumados à dura vida das ruas. Investiram em dupla, com força e determinação. Mas se eram bons lutadores de rua, Zé Gatão era mais do que escolado nesse tipo de embate e não pegou leve com eles. Bateu pesado, rápido, de maneira devastadora. Os cães apanharam tanto que até perderam a noção de onde estavam. Como prometera, o gato cinza expulsou os três a pontapés. Aplicou um chute tão forte no traseiro do buldogue que este sentiu o reto parar na boca! Fugiram ganindo alto e ladrando vingança. Infelizmente, a briga danificou boa parte das mesas e cadeiras. O prejuízo foi enorme!

O felino taciturno encarou seus amigos significativamente, e eles perceberam que não podiam mais ocultar dele seus dissabores. Contaram que há muito eram atormentados por bandidos felinos e caninos que a mando de um poderoso felino, chefão oriental do crime, desejava forçá-los a vender o restaurante. Anteriormente, chamaram a polícia, mas o total descaso com que foi tratado o problema deu a entender que as forças da Lei deveriam estar na folha de pagamento do tal chefão. A recusa sistemática da família Lao em acatar a vontade do criminoso levou ao assassinato do senhor Chang, patriarca da família, encontrado morto com uma faca nas costas em seu furgão. Isto acontecera quando fora sozinho pegar uma encomenda de manhã cedo na periferia do bairro. O jovem Ching antes de sua viagem espantara todo e qualquer arruaceiro que aparecera no restaurante. Ching era um excelente lutador de artes marciais. Zé Gatão treinara muito com ele, mas jamais superara seu amigo em combate. Como Ching teve que participar de um Congresso de Restaurantes Orientais em outra cidade, a família ficara desprotegida sem a sua presença. Então, o felino casmurro prometeu que ficaria para proteger seus amigos e quando Ching voltasse decidiriam juntos o que fazer para assegurar a paz para aqueles pacíficos felídeos, que nada mais queriam, só trabalhar e viver tranquilos. Naquele mesmo dia, o Gatão deixou o hotel e passou a morar com a família Lao no andar superior do restaurante.

PODERÁ ZÉ GATÃO PROTEGER SEUS AMIGOS DA SANHA DOS BANDIDOS ATÉ A VOLTA DE CHING? QUEM O PODERÁ DIZER?

Luca Fiuza, Brasília, DF, é professor de História, quadrinista e escritor. Um Livre Pensador.

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