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Sob o Sol e Sem Sapatos: O Cão Cínico e a Marreta

O papel que me cabe, enquanto Filósofo de Pés Sujos, o natural, não o criado por inteligência artificial em laboratórios de campus de universidades federais, com reitores bostificados, professores massificados e alunos gramscizados, é o de não pensar. Dirão então que ser filósofo é pensar, e direi que a balela do pensador é tão falsa quanto o próprio delírio do cotidiano coletivo, de que pensa quem sabe e obedece quem tem juízo. Ou seria o contrário? Não sei, sei apenas o tamanho do meu prejuízo. Eu, que fugi da escola para morar com putas, que troquei sapatos por discos de rock, roupas por quilos de livros, sempre acreditei no saber, não na inteligência; na sabedoria, não na genialidade. Disseram que eu era inteligente e acreditei. Não fui eu quem disse isso. Sei quem foi, mas não digo. Queria apenas saber quem foi que eu era, porque teria casado com ela. Até com ele. (Risos sarcásticos da plateia).

Mas, como eu dizia, o meu papel não é o higiênico, aquele que limpa a bunda do pobre acadêmico, que arrota Heidegger, alguma coisa assim, depois de comer mortadela. (Sem pão). É, confesso até envergonhado que li muito de Nietzsche (e até consigo escrever essa merda de nome sem recorrer ao Google); Desde os meus dezesseis anos, leio o alemão. (Prussiano? Nem sei direito). Mas leio o Frederico da mesma forma que lia os garranchos do meu avô, que era semi-analfabeto e escrevia “como se fala”. (Êzito, vazo, eziste, ezame…) Ou seja, leio entendendo o que quero, não o que ele quer. Não caio em armadilhas de filósofos alemães, especialmente de bigodão. (Nesse caso, de bigodão, Belchior também era filósofo e tinha bigodão).

Tenho comigo, olhando para meus pés sujos, aqueles de caminhar por terrenos imundos como o coração de filhos ingratos, mulheres sem alma e cidades imundas, que filosofar com o martelo é fácil. (Com a foice e ele juntos, mais ainda), mas então adotei minha marreta, que já tinha usado para construir casas que foram destruídas, paredes demolidas, mas que agora, pintada de laranja, fica deitada na minha frente. Eu a chamo de Diógenes, a Marreta Cínica. E é “a” Diógenes, porque é uma marreta-mulher. Minha marreta é meu cão e meu barril, e com ela derrubo o Grande Imperador que insiste em tapar o meu sol. “Queres algo de mim?”, pergunta o pequeno Alexandre, O Grande, como perguntou o outro ao Cão Cínico. Sim, respondo eu, saia da frente do meu sol. E a Diógenes, a Marreta Cínica, voa em sua direção.

Há anos não calço sapatos. Há tantos que não uso calças. E há outros tantos que não sei pedir nem esperar. Pedir e esperar são formas rudes de escravidão disfarçada. Nada peço, nada espero e nada almejo, senão minha liberdade e minha vontade. Poucos são meus vícios, poucas minhas vaidades. Um teto sem goteiras, um prato apenas de comida por dia… Ah, alguma cerveja e uns cigarros. Ah, confesso minha maior vaidade: livros. Livros, livros, livros. Do vício em livros, desse não me livro. Não durmo num barril, mas meu mundo tem nove metros quadrados, dividido com meus livros, minhas gatas e minha cama. Basta! É meu castelo. Reino majestoso, mesmo que tome banho um dia na semana. Afinal, os nobres da Renascença ficavam um mês ou mais sem banho. (Não esqueçam que sou Filósofo de Pés Sujos).

Minha filosofia arrogante para os donos dos campus, das esferas tortas dos mecanismos de poder, dos professores com camiseta de falso guerrilheiro, e a qualquer dono de galinheiro, não tem qualquer importância. E na sua hipocrisia, se fantasiam de pobre, rasgam as roupas e visitam a favela como se isso lhes trouxesse qualquer diploma de pureza. Acham mesmo, impostores, que os pobres compram suas mentiras? Não compram porque não têm dinheiro, mas não engolem nem de graça, e para sua desgraça, saibam que enganam apenas os ricos, aqueles que financiam suas campanhas de eleição, que pagam sua refeição, que mantêm a relação, mas que mandam no seu mordomo, compram seu porteiro e sugam seu dinheiro. Tolos idiotas, que acreditam em marmotas, em agiotas e em diplomatas poliglotas.

Calce meus sapatos e ande uma milha, já cantou o Rei. Calce minhas meias e caminhe na praia, cheia de areia, canto eu. Não há nada que sei, nada que tenha que não usei, e se tenho pés sujos, é limpa minha consciência. Por ter criado filhos como libertários, que se tornaram otários; de ter aceitado ser o sim quando queriam-me o não. E o oposto se enquadra numa velha e triste quadra de um poeta sem refrão. O poeta filósofo de pés sujos, também conhecido com o singelo nome de “Senhor Não”. O senhor, não do não, mas do sim, mas ao qual o “não” sempre esteve grafado em todas as portas que abriu. Cansado de ficar do lado de fora das portas que abriu. Cansado de ser soterrado por paredes que construiu. E muito mais, cansado de ser esquecido, antes mesmo de ter eternamente adormecido.

Neste mundo, esterilizado pós-fraudemia, neste mundo elitizado, falsamente politizado, a sujeira dos meus pés é tratada como doença, e a doença da sujeira debaixo do tapete das salas do Planalto é tratada como beleza. Putas porcas, presidentes sem dentes, magistrados doentes e toda série de sujeiras que inundam, das cátedras às catedrais, afirmam, sob o coro dos contentes dementes, que são minhas mãos calejadas e cheias de rugas e veias que lhes ameaçam. Que são meus pés sujos que lhes perseguem. Nunca usei máscaras, como não uso sapatos. Nunca usei álcool em gel nas minhas mãos tortas, e nunca acreditei nas mentiras juradas em nome da Ciência e da Democracia. Gostaram da experiência, da exortação coronariana, e assim se fez fé na mentira. Soltaram bandidos, baniram cientistas e prenderam insurgentes em processos kafkianos, em castelos papudos. Que comunismo é esse, Imperador? (Há quem acredite que seguem Marx, mas só se for o Groucho). Morreram as cores, restam as dores. Mundo estilizado, desenhado sem brilho, sem luz, sem ética e nem estética. Mundo sujo.

Ontem eu quase morri. Engasgado com cerveja. Nunca senti a morte tão perto. E ainda pensei, quase morrendo sufocado, que seria bem melhor morrer sem ar, do que ser jogado num corredor de um castelo por juízes injustos, comprados a um preço que nem imagino, mas que faz parecer que ouro não é mais a moeda, mas qualquer outra coisa, muito mais poderosa e valiosa que o vil metal. Falamos de almas, dirão os crentes. Falamos de demônios, especularão os dementes. Falamos de reptilianos, dirão os repelentes. E digo eu, dentro do meu ateísmo crônico, falando em cima de meus pés sujos, que do que falamos é algo tão imundo que jamais poderá nossa ingênua humanidade, mesmo que por acidente, esbarrar na verdade. O que temos, e do qual nada sabemos, é uma Ordem tão grande e poderosa que sequer filosofias vãs, e muito menos filosofias anãs, poderão supor, e um dia entender.

E que futuro propõe minha Filosofia de Pés Sujos? Tenho que me desculpar perante os que de mim algo esperam, se é que alguém algo de mim espera — e ainda bem que não — mas é justamente a FPS, que diz: não espere nada, não tenha esperança em nada, não acredite em nada. “É essa a saída para a felicidade e a liberdade?” Decerto perguntarão. E eu lhes direi um sonoro NÃO. Porque o não é a resposta para todas as perguntas que me fizerem sobre liberdade e esperança. Só não é para quando lhe perguntarem sobre a sua mais sincera e absoluta VONTADE!

Escrito e Publicado em 05/09/2024

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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Celso Moraes F
Celso Moraes F
05/09/2024 12:39

Mas morrer engasgado com cerveja é tão poético! Ainda bem que não morreu, ainda tem que escrever muitos textos para nosso deleite, mas, que quando se for, não se engasgue com leite, e sim com o “suco de cevada e lúpulo”, e que o faça sem escrúpulo.

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