Há muitos compositores brasileiros que são aclamados pela qualidade de suas letras. Grande parte deles, cursaram faculdades, e gosto e preferências à parte, têm letras realmente muito bem feitas, que falam de problemas da sociedade e do ser humano, além de conterem muita filosofia. É o caso de Chico Buarque, Caetano Veloso, Belchior, Aldir Blanc e vários outros. Mas, então proponho um desafio agora, e quero saber quem acerta o compositor: “Não aborte os seus ideais / No ventre da covardia / Vá à luta empunhando a verdade / Que a liberdade não é utopia…”.
Dou-lhe uma, dou lhe duas, dou-lhe três… Quem disse Belchior… Errou feio. Quem disse o Buarque… Ah… Também errou. Certo… Caetano… Como diz aquele meme do Porta dos Fundos: “Errou feio, errou rude!”. Então, catzo, quem é?
Vamos lá: os nomes dos dois compositores: Antonio Domiciano e João Gomes de Almeida. Quem? Isso mesmo. Domiciano é um compositor brasileiro de música sertaneja, com músicas gravadas por duplas como Chrystian & Ralf, Gian & Giovani e… Duduca & Dalvan… Como? Sertanejo? E sertanejo brega? Isso mesmo. Mas calma, que o outro compositor dessa música é João Gomes de Almeida, um descendente de índios guaranis por parte do avô que tocava oito baixos, e que adotou o nome artístico de Dalvan. Isso mesmo, senhoras e senhores, essa música é de uma dupla sertaneja, Duduca & Dalvan, e tem o nome de “Massa Falida”, de um disco homônimo de 1985.
A dupla, formada por Duduca (José Trindade) e Dalvan (João Gomes de Almeida) começou a carreira em 1978 e durou até 1986, com a morte do primeiro de infarto. A dupla fez imenso sucesso nas rádios AM do Brasil na década de 1980. Seu último disco foi justamente “Massa Falida”.
Em 1986 ou 87, eu estava num barbeiro em Praia Grande, e o sujeito tinha o rádio ligado tocando música sertaneja. Claro que aquilo me incomodou, mas o estabelecimento era dele, afinal. De repente começa a tocar essa música e tomei um susto. Puta que pariu! Que puta letra! — Exclamei. E perguntei o nome ao homem. “Duduca & Dalvan”. Bem, isso para mim era como se ele dissesse “Bolacha & Biscoito”, ou seja, nada. E lembro que comentei algo como: se não fosse o ritmo, se alguém apenas lesse a letra apostaria nalgum medalhão cultuado da emepebê. Dias depois acabei escutando de novo. De novo. E de novo.
Lembrei-me dessa música agora, e me reacendeu a chama crítica, ao observar que os chicosbuarques, caetanosvelosos e outros são aclamados como grandes gênios, ganham ministérios e altos cargos em governos. E a eles são dados créditos de grande pensadores e até ocupam cadeira e usam fardão, enquanto muitos talentos país a fora morrem esquecidos.
Estamos numa sociedade extremamente dividida, não apenas na questão política, mas também social e até artística. Artistas que se identificam com “Direita” não apoiam e discriminam quem apoia o outro lado. E vice-versa. Muitos são “cancelados”, ostracizados e tratados como escória por estarem do lado oposto. Infelizmente isso só tende a piorar, mas que causa muita tristeza, isso é fato. Todos perdemos com essa divisão. E creio que sabem bem quem ganha com ela.
E uso a mim mesmo como exemplo. Ao ter a ideia deste artigo, fui em busca de informações sobre a dupla, autores etc. E encontrei uma nota: “Lula usou a música ‘Massa Falida’ na campanha para deputado constituinte, em 1986, e foi eleito com 650 mil votos, recorde na época. Quando deixou a cela da Polícia Federal, em Curitiba, Lula também citou ‘Massa Falida’ no primeiro discurso fora da prisão.” Quase me arrependi de escrever sobre a música.
04/04/2024
Massa Falida
Duduca & Dalvan
Compositores: Antonio Domiciano / João Gomes de Almeida
Eu confesso já estou cansado
De ser enganado com tanto cinismo
Não sou parte integrante do crime
E o próprio regime nos leva ao abismo
Se alcançamos as margens do incerto
Foram as decretos da incompetência
Falam tanto sem nada de novo
E levam o povo a grande falência
Não aborte os seus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Não aborte os seus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Os camuflados de samaritanos
Nos estão levando a fatalidade
Ignorando o holocausto da fome
Tirando do homem a prioridade
O operário do lucro expoente
E a parte excedente não lhe é revertida
Se aderirmos aos jogos políticos
Seremos síndicos da massa falida
Não aborte os seus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Não aborte os seus ideais
No ventre da covardia
Vá a luta empunhando a verdade
Que a liberdade não é utopia
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Ouvi essa música muitos anos atrás. Confesso que ela nunca chamou minha atenção devido ao meu desinteresse no gênero musical sertanejo, o que acaba sendo uma bobagem, haja visto que aqui e acolá encontramos algumas joias raras, como a que você destaca.
Realmente, a letra é forte e direta, de forma que oportunistas se apropriam dela para os mais variados fins, inclusive os nada nobres.
E, quanto aquelas badaladas estrelas emepebísticas, não obstante seus talentos, não passam de massas falidas morais.
Contextos relatados no texto, incluindo meus “preconceitos” com o gênero, e a conclusão sobre oportunismos idem, muito bom o fechamento de seu comentário: “não passam de massas falidas morais”. Incluindo os que não criam, muito pelo contrário destroem.
O duro mesmo é saber que o Inominável parece ser fã dessa música. Mas, nem creio que seja isso. Como se sabe, ele é um contumaz citador de frases que lhe foram enfiadas naquela cabeça bêbada, porque o mesmo não tem sequer capacidade de andar e mascar chiclete ao mesmo tempo. Então, não culpemos a obra, e não deixemos de admirar a coragem da letra, sem esquecer que essa música foi feita em 85, quando vivíamos ainda nos restolhos da ditadura militar e não tínhamos nenhuma noção de que a tal Constituição Cidadão de 88, nos foderia para o resto da vida.
Um trabalho artístico não pode ser renegado porque algum infeliz filho de uma boa cabe, como no caso citado, gosta dela. Muito idiotas (i)núteis dizem que Wagner, o Gênio, é ruim porque a desgraça do Hitler amava a música dele. A esses pergunto: seu cérebro ainda existe?