Na Rua dos Desviantes, onde as sombras dançavam com os reflexos e os sons eram distorcidos como notas de uma sinfonia enlouquecida, havia um antiquário chamado Reflexus Obscurus. Seu dono, era um homem de olhos turvos e cabelos prateados que pareciam absorver a luz. Ele colecionava refletores, não os comuns, mas aqueles que tinham histórias entrelaçadas em suas superfícies.
Uma poetisa errante com lábios manchados de tinta e olhos que refletiam o universo, passava suas noites no Reflexus Obscurus. Ela acreditava que ali, entre os murmúrios e as distorções, a verdade sobre a autoimagem se revelaria. A autoimagem, essa teia de ilusões e autodecepções que todos tecemos para nós mesmos.
O antiquario a conduziu até um refletor oval, adornado com arabescos de ébano. “Este é o Refletor dos Despautérios”, disse ele. “Ele não reflete o que você é, mas o que você acredita ser.”
Ela olhou para o refletor e viu seu rosto, mas algo estava errado. Seus olhos eram mais profundos, suas sardas formavam constelações, e havia uma tristeza ancestral em seu sorriso.
“Quem sou eu?”, perguntou ela.
Ele acendeu uma vela negra e sussurrou palavras antigas. O refletor começou a vibrar, e ela sentiu-se puxada para dentro dele. caiu em um mundo de cores psicodélicas, onde o tempo dançava em espirais e as leis da física eram apenas sugestões.
Encontrou-se em um salão de espelhos infinitos. Cada reflexo mostrava uma versão diferente dela mesma: uma guerreira com armadura de luz, uma sereia com cabelos de arco-íris, uma velha com olhos de sabedoria. Ela estava em todos os lugares e em nenhum.
“Quem sou eu?”, sussurrou.
As vozes dos refletores responderam em coro: “Você é todas as suas máscaras, todas as suas versões, todas as suas mentiras.”
Dançou com suas múltiplas identidades, perdendo a noção do tempo. Viu o passado e o futuro, os amores e as perdas. E, no centro do salão, havia um refletor negro, sem reflexo.
“Quem pertence esse rosto?”, perguntou ela novamente.
O antiquario sorriu. “Esse é o Refletor da Essência. Ele mostra o que você realmente é, além das aparências e das ilusões. Mas cuidado, nem todos estão prontos para encarar a verdade.”
Ela olhou para o refletor negro e viu seu rosto desaparecer. Ela mergulhou em um vórtice de luz e escuridão, até que não restou nada além de uma centelha de consciência.
“Quem sou eu?”, perguntou ela, agora sem voz.
Ele sussurrou: “Você é o mistério, a busca, o infinito.”
E, no silêncio do refletor, encontrou a resposta: ela pertencia a todas as suas versões, a todas as suas verdades, a todos os despautérios da autoimagem.
Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador. Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs.