1.
Há sítios onde já morri, e eu sei exactamente esses sítios onde. Nunca me ia despedir deles, porque não sabia. O que acontecia é que eu estava ali e, de repente, a surpresa duma canção branca, a ressoar-me dentro aquele nunca mais agora aqui. Aprendi, com o tempo, que vamos morrendo, de sítio em sítio, mas não lhe damos nome de morte, a não ser no último. Morro de mim e de ti, constantemente, disto e daquilo, daqui e dali, sentando lembranças nas margens do rio que avança.
2.
O mesmo talvez aconteça a todos que estejam atentos. Em cada um desses sítios, quando a voz canta da coruja branca, germina em nós, imediatamente, da poesia incendida, a semente viva, e da maravilha, que se vai condensando, etérea, em essência poética. É-nos concedido, então, o supremo dom do vislumbre a arder, no núcleo oculto, do poema a ser. Mas logo morremos. E, nesse sítio, o dom da sabedoria, e do poema, inteiro e verdadeiro, morrerá também. Morremos em cada poema que escrevemos, e em cada um que fica por escrever.
3.
Morremos ali, e seguimos em frente. Esse quando e onde, onde agora estamos, é tudo quanto é, tudo quanto está, mesmo o que não. Este presente mente. Mas é o que vale. É o aqui de tudo, o milagre, onde todo o tempo e espaço têm centro em nós. É aqui que estamos, é aqui que somos, é aqui que vamos. É aqui que existimos. E só aqui podemos fazer valer o que defendemos e somos. Só aqui e agora, enquanto vamos morrendo, aqui e ali, em cada lugar, em cada momento. Morremos de nós, dos sítios e dos outros. Não volta do rio a água que passa.
4.
Paciente e calma, a nossa viagem espera, sentada num barco, olhando para a frente a novidade do rio, até onde, uma incógnita certa, com solução a vir. Paciente e calma, olha e espera. E é sempre querida, como nós queridos, a que houver de haver. Olhamos para trás, e lembramos vivamente algumas curvas onde, outras, vagamente, outras eventuais, que, ocasionais, afloram. Do início mesmo, nenhumas, não sabemos nada. Tal como do fim, nada saberemos. Morremos do que sabemos e do que esquecemos, do que ganhamos e do que perdemos. São os dias que somamos, os nossos dias a menos.
5.
Nas curvas do dia, nas curvas da vida, nas curvas do rio, da nossa viagem, tudo pode acontecer. Há manjares dispostos, ali à nossa frente, e nem sequer os vemos. Somos pequeninos. Entre o infinitamente grande e o pequeno, não temos medida, nem lugar, nem tempo. O infinitamente esmaga. E redime. Paradoxalmente. E nós tão finitos. No tempo. E no entendimento. Já morremos tantas vezes. Sempre que canta a coruja branca, deixamos pedaços nas margens de nós, e o rio avança, devagar, com saudades do que fica, sem saudades de chegar. Somos a chuva que caiu, mas que não cai nunca mais. Só chovemos uma vez. Já morremos tantas vezes. Corre o rio para o mar.
António Mota nasceu Portela das Cabras, Vila Verde, Braga, (Portugal). Estudou nos Estados Unidos da América e e frequentou a Faculdade de Direito em Coimbra. É poeta, escritor e Livre Pensador.

Saudações poéticas caríssimo Mota! Com muita satisfação eu li o seu poema, que por sinal é mais uma obra fantástica: Encanta e cantando em místico a morte, e com louvores. Rasgando a seda por assim dizer e muitos pensaram, mais a sua grandeza em compor não deixa nada a dever: Tendo em visto que todo humilde é grande e sem vaidade, mesmo podendo ser. Isso encanta os leitores. Gostei demais que me inspirou a escrever sobre a morte também. Amanhã estará aqui . Lógico que nunca terá a grandeza da sua. Felicidades e muito sucesso.
Obrigado pela leitura em politicamente.