1.
Não me vou esquecer de mim. Não há morte que me aporte, e de mim mesmo me aparte, e me leve no que sou. Pode vir quando quiser, e onde, mas não é ela que decide o que levar. Só levará de mim o que restar, casa vazia, casca fria, cinza branca, dor ou nada, à flor do vértice pousada, da partida e da chegada, entre duas eternidades, de que sou, abstracto, o meio exacto.
2.
Ninguém morre nunca quando a morte. Só se morre quando a vida. Não há transição, nem passagem de, nem para. Ou se vive ou se está morto. E, por isso, não há morte que me aporte e de mim mesmo me aparte, quando me vier buscar. Serei sempre o que sempre fui, biblioteca e labirinto, onde eterno o esquecimento dorme. Nunca a morte se encontra com o homem. Quando o homem está, não está a morte, e quando a morte chega, já partiu o homem.
3.
Há na natureza uma força, uma grandeza, tão de vida e abundante, que não há morte que a mate. O que há é movimento. E eu sou, dessa natureza, ínfima parte, eternamente. Pois, se vivi, vivi, e se morri, morri. Não altera a morte a vida que vivi, nem a base do cone de luz, de que sou o vértice, e de onde vim. Não altera a vida o vértice do cone, que dela parte, e se projecta para a base crescente, anónima, futura, e sempre, após a morte.
4.
Só nos acontecemos no vértice do cone, que do passado aflora, e no vértice do cone, que para o futuro, inverso, avança. E nós não conseguimos ver-nos aquém do vértice e além. A verdade, porém, é que somos infinitamente mais que os vértices que somos, efémeros e simultâneos, onde aportamos, e de onde embarcamos. Imensa é a viagem no desconhecido. Um maravilhamento suspenso, se nos prende, à espera. Há tanto que saber, e é tão pouco o tempo.
5.
Não me vou esquecer de mim. Não há morte que me aporte, e de mim mesmo me aparte, e me leve no que sou. Pode vir quando quiser, e onde, mas não é ela que decide o que levar. Só levará de mim o que restar, casa vazia, casca fria, cinza branca, dor ou nada, à flor do vértice pousada, da partida e da chegada, entre duas eternidades, de que sou, abstracto, o meio exacto.
António Mota nasceu Portela das Cabras, Vila Verde, Braga, (Portugal). Estudou nos Estados Unidos da América e e frequentou a Faculdade de Direito em Coimbra. É poeta, escritor e Livre Pensador.

Caro, Mota! Pura excelência na sua escrita.✍️
Não há morte que transporta, a outro lugar de maravilha. Exceto o céu!
No meu caso é de muitos, viver é só um respirar. As mazelas do mundo tomado pela corrupção, e a deslealdade do ser humano, e essa dificuldade da honestidade política: mata o ser humano A vida já morta, vegetativa, sem o prazer da felicidade, ou justiça.
Abraços ✍️.