Arte Original: Eduardo Schloesser (Colorizado Digitalmente)

04 — A Ponte Trágica (Um Conto Sobre o Universo Antropomórfico de Eduardo Schloesser Escrito por Luca Fiuza)

Em um vilarejo interiorano sem luz e sem os confortos da vida moderna residia uma comunidade canina simples e ordeira que vivia dos produtos da terra. A única sombra de progresso que havia surgido há alguns anos era a linha férrea que trazia uma fumarenta e ruidosa locomotiva atrelada a velhos vagões de carga. Todo fim de mês a mesma parava na pequenina, mas bem construída estação para recolher os frutos do suor daqueles animais. Estes produtos livres de agrotóxicos iam abastecer as cidades da região. O lucro deste comércio não era muito. Contudo, era suficiente para aquelas criaturas simplórias terem uma vida decente dentro dos padrões a que se achavam acostumados.

Tempos depois surgiu nas cercanias um gigantesco Dogue Tedesco de índole má. Corpo musculoso de cor branca com manchas pretas. Voz trovejante e baba farta escorrendo pelas comissuras dos lábios frouxos, olhinhos brilhantes e cruéis. O indivíduo cismou em se postar o dia inteiro no meio da pequena ponte de pedra sobre o rio. Esta ponte separava o vilarejo da estação de trem. O brutal canídeo vociferou estático em sua posição que só passaria quem conseguisse vencê-lo em um duelo. O gigantesco canino portava um estadulho, pedaço de pau nodoso com o qual moía os ossos dos tolos que tentaram desafiá-lo. E houve muitos. Facilmente o monstruoso Dogue atirava seus oponentes com ossos quebrados nas águas geladas do rio abaixo da ponte. Em um destes embates um cachorrão forçudo que era o ferreiro do vilarejo aceitou o desafio. Este deu um pouco mais de trabalho ao Dogue, mas um certeiro golpe no meio do crânio atirou-o às águas, onde desapareceu para nunca mais ser encontrado.

Então, proibidos de atravessar a ponte, os pobres habitantes do vilarejo viram seu meio de sustento cortado, uma vez que não podiam mais levar seus produtos para o trem que parava mensal e religiosamente na pequena estação. Nem os protesto do maquinista, um porco grande, rosado e balofo, valeram de alguma coisa, Foi expulso a pauladas pelo grande Dogue que gargalhou até quase rebentar. Nem à noite era possível atravessar a ponte. O enorme cão aparecia não se sabe de onde e punha para correr o atrevido. Tentaram atacá-lo em grupo, mas seu nodoso estadulho girando em suas mãos como uma hélice espancou duramente os infelizes que acharam que podiam dominá-lo. A sombra da penúria pairava sobre o vilarejo e o pior de tudo é que os habitantes da malfadada vila eram forçados a pagar tributos em gêneros e toda a semana mandar uma cadelinha nova para saciar o inesgotável apetite sexual daquele que os tiranizava.

Certa manhã, um estranho apareceu na vila vindo do norte. Era um enorme gato extremamente musculoso, cinza, as suíças e os pelos nas pontas das orelhas denotavam que era um mestiço de gato e lince. Tinha um ar grave e era de poucas palavras. Mesmo assim, procuraram tratá-lo bem, desculpando-se pela frugalidade da refeição que foi oferecida na casa da esposa do ferreiro morto. Cochichando, contaram ao felino seus dissabores. Em princípio, o gato pensou que não era assunto seu, mas quando viu algumas mães tristemente escolhendo suas jovens filhas para serem entregas em holocausto aquela fera, o sangue lhe subiu a cabeça.

Em passos decididos, o felino cinzento foi até a ponte e caminhou por ela parando no meio bem de frente para o Dogue colossal que o encarava de cenho fechado. O tom de voz do Dogue parecia um ronco e tinha um forte sotaque quando indagou rispidamente:
— Que querr aqui, gato?! Veio desafiarr a mim?
— Vim arrebentar tuas fuças e te deixar mais feio do que já é! – O canídeo riu estrondosamente.
— Onde estarr sua estadulho? Pensarr poderr vencerr a mim com seus mauns nuas? Tomarr este faca e corrtar uma estadulho parra focê! – Desdenhosamente, o enorme cão atirou um facão que trazia à cinta aos pés do felino taciturno. Sem nada dizer, tomou-o e habilmente cortou um galho de uma árvore próxima desbastando-o até confeccionar um estadulho rijo semelhante ao do oponente.

Os adversários não trocaram mais nenhuma palavra. Partiram para o embate duro, encarniçado, brutal! Os habitantes da vila foram chegando aos poucos enquanto o combate recrudescia. O som dos estadulhos se chocando era alto e assustador. De repente, o Dogue deu um golpe inesperado e animalesco, só não atingiu o felino devido a sua presteza em bloquear o formidável ataque. Golpes em cima de golpes eram aplicados, mas os dois combatentes mostravam que não eram principiantes e não se deixavam atingir, bloqueando, embaixo, em cima, saindo de uma investida lateral, o suor porejando em bicas, os rostos convulsionados, respirações sibilantes.

Inesperadamente, uma forte paulada atingiu de raspão as costelas do grande gato fazendo-o grunhir de dor. Tomado de dor e fúria mas decidido a não se dobrar, o felino avançou desferindo uma sequencia de golpes que atingiram a lateral do tronco do oponente, seguida por uma pancada na cabeça que fez o gigante curvar-se já vendo estrelas. Sem piedade, o mestiço invocado malhou o lombo do infeliz cachorro até que ele caísse vencido, ganindo penosamente — um ganido grosso e desesperado. Uma baba grosa lhe caía pelos lábios frouxos molhando-lhe o peito. O gato se quisesse poderia dar o golpe final naquela fronte derreada, mas conteve-se. Os dois ficaram se encarando longamente. Num átimo, o canzarrão mexeu-se ofegante de dor e se atirou nas águas do rio. Ali sumiu para nunca mais ser visto outra vez.

O felino sorumbático partiu sem esperar agradecimentos daqueles animais simples e bondosos. Passou como uma sombra naquela comunidade, mas ficou para sempre lembrado como aquele que viera na hora mais sombria para libertar do calvário aquela vila esquecida.

Luca Fiuza em 30/07/14.

Originalmente Publicado em:
https://eduardoschloesser.blogspot.com/2014/09/um-conto-sobre-o-universo.html

Do Livro:
ZéGatãoVerso – Contos de Luca Fiuza Ilustrados por Eduardo Schloesser

Texto: Luca Fiuza
Criação do Personagem e Ilustrações: Eduardo Schloesser
Apresentação e Edição: Barata Cichetto
Gênero: Contos/Quadrinhos
Ano: 2024
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 312
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,500

Luca Fiuza é professor de História, quadrinista e escritor. Um Livre Pensador.

Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador, entre outros, de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.

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Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
30/04/2024 13:19

Amo esse conto. Tem um tom de fábula. O herói que surge anônimo em uma cidade pacata, acaba com o tirano e evade-se sem esperar pelos merecidos agradecimentos. Ponto para o escritor!

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
30/04/2024 7:49

A Ponte Trágica é uma homenagem as histórias de Robin Hood, mais especificamente a um disquinho que tive na infância. Também me inspirei no pistoleiro sem nome vivido por Clint Eastwood nos filmes de Sergio Leone. Em fim, Zé Gatão é o desconhecido de poucas palavras que aparece em uma hora de necessidade e da mesma forma como veio desaparece. Por causa da inspiração tem um sabor antigo quase medieval e um que dos faroeste míticos dos filmes que crescemos assistindo.

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  Luiz Alberto F. dos Santos
30/04/2024 8:23

Esses contos são fantásticos. Essa saga tem uma história melhor que a outra.

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Barata Cichetto
01/05/2024 12:07

Obrigado amigo. Lisonjeado por suas palavras. Edu e eu trabalhamos com muito carinho. Confesso não ser simples desenvolver corretamente o personagem de outra pessoa. Felizmente não estava sozinho! Pude contar com a assistência do criador em pessoa. Edu sempre me deu liberdade criativa, acreditando que minha narrativa seria fiel à essência do Gatão. E assim foi. Por nos conhecemos bem e por não ter sido nossa 1a parceira. A diferença agora é que se tratava de um personagem mais denso e que já tinha sido publicado profissionalmente. Por conta disto, a minha responsabilidade era bem grande. Atesto que foi um belo desafio!

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  Luiz Alberto F. dos Santos
01/05/2024 13:33

Uma coisa que muito admiro, isso de entrar e vestir um personagem de outra pessoa. Isso, além de demonstrar uma capacidade ímpar de abrir mão de suas próprias concepções, e especialmente de confiança mútua. Honestamente não sei se eu mesmo teria essa capacidade, porque sou muito ciumento das minhas criações (rs).

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Barata Cichetto
02/05/2024 11:01

De fato, não é tarefa fácil. O autor precisa ter muita confiança no outro autor e isto o Edu sempre teve, graças a nossa amizade longa e outras parcerias informais que tivemos, desenhando e escrevendo juntos. O Gatão já foi um outro departamento. Mas junto com o Eduardo conseguimos realizar produções consistentes e sempre de acordo com a proposta do personagem. Foi um aprendizado constante para mim e o Edu pode retratar os meus enredos com esmero através de suas ilustrações, aumentando o impacto das narrativas. Felizmente, ele sempre arranjou tempo para ilustrar as sagas mais importantes do felino em prosa.

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  Luiz Alberto F. dos Santos
02/05/2024 12:31

É perceptível esse casamento perfeito de ideias. O resultado a gente vê na qualidade dos textos e nas ilustrações.

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