Seis meses haviam transcorrido e a vida de Zé Gatão seguia normal, sem sobressaltos. Era da casa para o trabalho e do trabalho para casa. O felino, no entanto, se mantinha alerta. A calmaria aparente poderia se converter a qualquer momento em uma tempestade mortal.
Meio-dia. O felino cinzento almoçava em seu canto. Mastigava sem vontade. Na verdade, não sentia fome. Notou um jovem contínuo, um camundongo simpático, aproximar-se. Trazia um envelope. Ao recebê-lo, o felino macambúzio notou o perfume delicado que exalava do singelo envelope cor de rosa. Zé Gatão agradeceu ao jovem roedor que se retirou sorrindo um pouco, decerto pensando alguma bobagem. Abriu o envelope e tirou dele uma carta escrita com esmero. As letras pareciam desenhos artísticos. Leu com atenção as seguintes palavras:
Meu querido,
Custei a encontrá-lo. Tenho observado você de longe. Sei onde mora, onde trabalha e a que horas entra no serviço…o momento exato em que volta para casa. Você é uma criatura excepcional! Apesar de meus cuidados, vejo que mesmo não tendo me visto ou ouvido você se porta como se sentisse estar sendo observado! Temos que terminar aquele nosso assunto. Encontre-se comigo no parque esta madrugada. Estarei à sua espera.
Com amor, sua tigresa fatal.
Zé Gatão não conseguiu decifrar o que havia por trás daquelas palavras. Estaria a felina selvagem gracejando? Brincando com seus sentimentos, talvez? O coração do gato batia descompassado. Em sua mente havia medo de seus próprios sentimentos e dúvidas atrozes Não sentia raiva. Apesar de tudo, nunca sentira. Iria ao encontro guiado por um desejo desenfreado que nem ele compreendia.
Três horas da madrugada. Uma lua pálida iluminava o céu estrelado. Alguns postes de luz lançavam uma luz amarelenta sobre bancos quebrados, mal destacando o piso de pedra desgastada que cobria o parque em quase toda a sua totalidade. Estava quente. Zé Gatão usava uma camiseta vermelha. Calça preta e botas de cano curto marrons completavam sua indumentária.
De repente, ela surgiu das sombras. Bela, altiva. Camiseta preta e curta sem mangas, revelando o ventre firme e musculoso. Calça estilo militar de um azul escuro. Na cabeça uma faixa vermelha cingia os cabelos fartos amarelos e entremeados de listras negras. Calçava um par de botas pretas pesadas. Aproximou-se lenta, como se estivesse se acercando da presa. Zé Gatão ficou imóvel à espera. A felina parou diante do grande gato e disse numa voz cristalina:
— Estou desarmada. Antes de qualquer coisa, temos que falar. – Sentaram-se em um dos bancos.
— Estou ouvindo. – Respondeu lacônico, o felino taciturno. – Ela prosseguiu:
— Fiz parte de um comando das Forças especiais da Marinha. Realizava missões secretas e não oficiais para o Governo. Em certa missão a mando de meus superiores, assassinei um governante de um país inimigo. A coisa toda foi descoberta e só eu paguei. Fui expulsa da Marinha e presa por 15 anos. Eu era muito jovem naquele tempo. Quando fui libertada não tinha perspectiva alguma. Minha vida não tinha qualquer sentido. Então conheci você.
— Por favor, me diga! Você realmente sente alguma coisa por mim? Seja sincera! Eu amo você! Por isto fui com você naquela noite e por isto estou aqui. – O rosto dela se tornou extremamente terno. Zé Gatão sentiu-se desabar.
— Eu te amo grandão! Mais do que possa imaginar!
O felino sentiu sua alma se iluminar. Ela continuou:
— Zé…! Carrego em minha consciência o remorso pelos crimes que cometi em nome do meu país, das vidas que tirei. Sei que deixei muitas famílias sem pai! Fêmeas sem marido! Eu mereço ser punida! E ninguém melhor do que você que conquistou meu amor e adoração para finalmente redimir meu espírito!
— N-não posso fazer isto! Olha, você se arrependeu! Vamos começar uma vida nova! Só você e eu. Eu te amo, minha tigresa!
— Também te amo, Zé Gatão! Você é muito mais que eu mereço. Por isto, ou você me mata ou eu te mato!
Subitamente, ela saltou sobre o felino cinzento tentando cingir seu pescoço em um aperto mortal. A custo, Zé Gatão evitou o golpe e derrubou-a ao solo. Em um átimo, ela se ergueu. Zé Gatão a olhava suplicante. Nos olhos dela, ele viu uma determinação pétrea, mas também um amor pungente, verdadeiro.
Lutaram ferozmente. Era a técnica de combate dela contra a luta de rua dele. Afastaram-se um do outro por alguns segundos. Ela saltou. Aproveitando a força do movimento da opositora, Zé Gatão atirou-a para trás e ela foi se chocar violentamente contra um poste próximo. Com um grito sufocado ele correu até ela. Estava seriamente ferida. A tigresa morreu nos musculosos braços de um Zé Gatão desesperado. O felino percebeu um lampejo de agradecimento nos olhos mortiços da amada. Abraçado ao cadáver, chorou como nunca em toda sua vida.
Originalmente Publicado em:
https://eduardoschloesser.blogspot.com/2015/11/amor-e-dor-um-conto-de-luca-fiuza-sobre.html



Do Livro:
ZéGatãoVerso – Contos de Luca Fiuza Ilustrados por Eduardo Schloesser
Texto: Luca Fiuza
Criação do Personagem e Ilustrações: Eduardo Schloesser
Apresentação e Edição: Barata Cichetto
Gênero: Contos/Quadrinhos
Ano: 2024
Edição: 2ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 312
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,500
Luca Fiuza é professor de História, quadrinista e escritor. Um Livre Pensador.
Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador, entre outros, de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.





















Zé Gatão não dá mesmo sorte no amor. Me vejo cada vez mais refletido nele.
Tem razão, meu velho. Mas teria ele sido feliz com uma criatura perturbada e imprevisível como a Tigresa? Tenho minhas dúvidas!
Um final como um chute na boca do estômago!
É verdade, Ed! Violento e visceral!
Final trágico! Gatão não conseguiu evitar, pois em uma luta de vida e morte, tudo pode acontecer! A Tigresa cumpriu seu Destino! Involuntariamente realizado pelas mãos de quem ela tanto amou!