Arte Original: Eduardo Schloesser (Colorizado Digitalmente)

19 — Inferno Verde – Parte 5 – (Um Conto Escrito por Luca Fiuza e Ilustrado Por Eduardo Schloesser)

11º Dia:

Com o dia seguinte, veio um temporal violentíssimo iniciado às primeiras horas do amanhecer. Parecia o prolongamento de uma noite densa sobre a Terra. Coriscos faiscantes, iluminavam tudo em um tom azulado e fantasmagórico, seguidos de trovões retumbantes a sacudir as cercanias! Felizmente, uma hora depois, a tormenta cessou, para alívio de Izayana, ansiosa em prosseguir a longa jornada de volta ao lar. Dito e feito! Levantaram acampamento e em meio à cinzenta, quente e úmida manhã se puseram todos em marcha acelerada, no intuito de encontrar as misteriosas cavernas, mencionadas pela grande líder felídea.

No início do entardecer, chegaram a um maciço rochoso localizado à frente, do outro lado de um rio caudaloso de águas esmeraldinas que sumia por uma reentrância no corpo da áspera penha. Seguindo as instruções de Izayana, foi confeccionada uma grande canoa de madeira, remos e uma boa quantidade de tochas. Também foram confeccionados vários recipientes de fibra vegetal para guardar a resina necessária para alimentar as tochas, pederneiras para acender os archotes. Arcos e flechas novos, aljavas, acrescidos de longas lanças pontiagudas. Por fim, uma boa provisão de curare e outras plantas venenosas, tudo amassado em forma de pasta, para embeber a ponta das setas mortíferas.

A líder achou por bem entrarem grota adentro pouco antes do anoitecer. Explicou que não faria diferença esperar pelo raiar de uma nova aurora, passando a noite junto ao rio cor de esmeralda. No interior da caverna, a escuridão era eterna e os perigos não mudariam fosse noite ou dia do lado de fora. Portanto, a canoa foi colocada na água e braços fortes a impeliram à frente, enquanto lentamente o sol descambava no horizonte, emprestando uma luz difusa e avermelhada ao crepuscular firmamento acinzentado por pesadas nuvens plúmbeas.

Adiante, erguia-se a entrada da caverna. Após ela, o manto da negridão os envolveu. Mesmo as tochas acesas, não conseguia perfeitamente dissipá-la. Karoll se achava no centro da embarcação, atrás do grande felino gris. A ave foi orientada a não remar, pois não tinha força e resistência para tal. Se achava aparentemente calma, mas um terror crescente inundava-lhe o espírito, à medida que mais penetravam nas trevas envolventes do buraco granítico.

Remaram em silêncio por cerca de duas horas consecutivas. Por fim, no limite de suas forças, o pequeno grupo resolveu aportar em uma relativamente extensa área de rocha seca, semelhante a um arremedo de praia. Os archotes foram dispostos em um semicírculo, fincados em suportes previamente moldados, fincados em nichos naturais do solo. Acima, pendiam monstruosas estalactites, formadas muitas eras atrás pelo infindo gotejar de água através do teto cavernoso. Incrivelmente, era fresco naquele ambiente sepulcral, trazendo alívio ao calor perene da selva virgem. Turnos de guarda foram organizados, pois apesar da quietude e da tranquilidade, reinantes, a morte podia estar a espreitar em alguma concavidade daquele extenso mundo de permanente breu!

O felino cinzento, pediu para fazer o primeiro turno de vigília junto com Izayana. Apesar de bastante cansado, não conseguia dormir! Uma apreensão mais forte do que a usual o dominava. Perguntou a líder guerreira, quais os principais perigos que poderiam ameaçá-los. Ela deu de ombros e calmamente as foi listando: no rio, peixes cegos carnívoros, e estranhos vermes aquáticos também cegos, grandes como cobras! Em terra seca, agressivos escaravelhos predatórios e do alto poderiam vir desde insetos alados a morcegos! Estes últimos os mais perigosos! O caminho que escolheram seguir era mais rápido, mas consequentemente, mortal! As poucas expedições que o utilizaram jamais voltaram. Somente o soberano e um séquito de guerreiros bem treinados o fizeram uma única vez! O monarca fez uma exigência: todos os oficiais teriam de decorar um mapa que ele confeccionou mostrando o trajeto, de forma que se o caminho tradicional pela selva estivesse impossibilitado de ser utilizado, haveria este, como foi o caso. Após este breve colóquio, o silêncio voltou a reinar. Felizmente, nada aconteceu ao longo da noite. Pelas contas, de Izayana, não faltava muito para o raiar do sol, lá fora. Ela e Zé Gatão foram descansar algumas horas, enquanto uma outra sentinela assumia o lugar de ambos. Mais tarde, após um frugal desjejum, a canoa foi colocada na água e em remadas poderosas se afastou do local de descanso noturno.

Por horas a fio, só o som ritmado dos remos na estrada líquida quebrava o silêncio tumular que a tudo envolvia. De repente, um agitar espumante se formou alguns metros à frente e das águas ergueu-se um ser grotesco demais para ser perfeitamente descrito! A tez que o cobria era de um branco desmaiado, comum a seres despigmentados, afeitos aquele ambiente sem luz! O corpanzil era ofídico, embora fosse um helminte e não um réptil. Não tinha olhos! Sua boca bizarra assemelhava-se a uma ventosa entreaberta! Sua postura prenunciava um ataque rápido e brutal! Com a precisão das máquinas guerreiras que eram, Zé Gatão e as felinas malhadas tomaram do arco e flecha e lançaram uma saraivada dardejante contra aquela aberração! As setas penetraram na derme macia do invertebrado, inundando seu sistema nervoso de seiva de Kitay, planta, dona de intensa letalidade! A besta-fera se inclinou para trás enquanto um esturro impressionante lhe escapava da profundidade de suas timpânicas entranhas! Mais flechas foram lançadas e novos urros de dor sacudiram os ares! Como descrever as sensações que então acometiam aquele pavoroso ente? Para ele, era como se seu âmago estivesse derretendo por meio da ação de uma substância altamente tóxica. Seu padecimento ia além do explicável e do tolerável! Violentamente, mergulhou nas águas frias do rio, ansiando alívio para um inominável sofrimento, verdadeiramente cego! Sentidos completamente embotados em trevas mais pesadas do que as verdadeiras trevas que o circundavam! Sumiu no fluído e consigo, seu último berro de final agonia! Impassivelmente, o grupo, retomou os remos e prosseguiu a viagem. Só Karoll, paralisada pelo horror, carregou para sempre em sua memória aquela cena singular, para a qual seu espírito livre, a voar acima das copas das árvores sob a luz radiosa do sol, não se preparara!

Em dado momento, um enorme peixe de aspecto disforme pode ser visto, movendo-se próximo à superfície. Para o gáudio dos navegantes, não molestou nem o barco e nem seus navegantes, deslocando-se ao largo. Rapidamente desapareceu nas profundezas desconhecidas!

As horas passaram com impressionante lentidão naquele lugar, onde o tempo parecia não existir! O sono suave e irregular do felino taciturno foi interrompido por um arrastado som de proximidade. Izayana já estava a seu lado. Sussurrou uma única palavra: — Escaravelhos…! Todo mundo, menos Karoll, se muniu de pesados machados de pedra com cabo de madeira. Zé Gatão preferiu servir-se de seu fiel cajado. A um sinal de Izayana, o grupo se manteve silenciosamente à espera. Logo uma suave luminosidade amarelenta foi surgindo entre as formações rochosas do solo. Uma tropa de uns dez escaravelhos pode ser vista se achegando a passos lentos. As antenas de ponta luminosa se movendo, enquanto sondavam o ambiente, tentando confirmar a presença de criaturas do mundo exterior em seus domínios. Tinham em torno de 1, 40 metros de altura. Corpos cobertos por uma blindagem natural que consistia em seu exoesqueleto. Mandíbulas ameaçadoramente proeminentes! Eram albinos, devido à evolução da espécie naquela obscuridade eternal. O felino cinéreo foi o primeiro a cair do alto da elevação sobre os surpreendidos coleópteros do negrume sem fim, dispersando-os, seguido pelas indomáveis guerreiras, precedidas por Izayana! Com fúria arrasadora, os felinos distribuíram pancada!

Zé Gatão e as onças atacaram sem dar tempo dos insetos se reagruparem ou reagirem! As machadadas, acompanhadas de cajadadas se sucediam, esmigalhando carapaças, expulsando explosivamente, o conteúdo interno daquela animália asquerosa! Um escaravelho saltou na tentativa alucinada de cravar as mandíbulas no pescoço taurino do gato! Em vez disto, recebeu uma cajadada brutalizada no corpo, seccionando-o em dois! Foi uma chacina! Dois tentaram ainda escapar. Contudo, o cajado do Gatão e o machado de Izayana bateram pesadamente em suas carcaças, quase esfarinhando-as devido ao impacto devastador! Os dois ex-fugitivos só puderam esticar os membros dianteiros descoordenadamente, antes de para sempre deixarem o mundo dos vivos, juntando-se aos restos destroçados da pequena horda, totalmente dizimada por aqueles mamíferos violentos! Invasores desalmados, privando os pobres insetos do direito de viver e se alimentar dos incautos visitantes, como sempre foi até agora!

Após o cruento embate, o grupo viajantes resolveu abandonar aquele local funesto e seguir adiante. Velozmente, a canoa navegou, pelo rio escuro e por horas a fio os remos bateram ritmicamente em suas águas geladas, produzindo um som meio irreal naquele ambiente silente.

No final daquele dia, acamparam em uma outra conveniente prainha rochosa. Izayana estava inquieta e o Gatão quis saber o motivo. A onça falou que estavam perto da saída da caverna, mas também do território dos morcegos. Talvez, segundo ela, fosse melhor que prosseguissem. Provavelmente, já deveria ser quase noite lá fora, quando os mamíferos alados saíam em busca de alimento em meio à selva. O felino taciturno discordou. Estavam todos muito cansados. Se prosseguissem poderiam dar com os morcegos ainda na caverna, ou mesmo ao sair dela e não teriam energia para enfrentá-los. Izayana pesou bem a situação e concordou. Pela primeira vez em toda a viagem pela negrura daquela lapa, Karoll falou, perguntando se não seria então melhor esperar pela noite seguinte. Izayana asseverou que de qualquer modo não haveria como evitar um encontro com os quirópteros. Até mesmo hoje, ou no mais tardar amanhã ao raiar do dia, quando voltariam à toca. A arara calou-se, desconsolada e retirou-se para tentar dormir. Zé Gatão nada disse.

Terminadas as confabulações, o melhor a fazer foi se recolher e descansar com as valentes guerreiras.

O felino gris foi deitar-se cheio de cismas. Sobreviveriam? Só o tempo o dirá! Não percam a parte 6 de Inferno Verde!

21/04 a 24/04/2020

Originalmente Publicado em:
https://eduardoschloesser.blogspot.com/2020/07/2104-240420.html

Do Livro:
ZéGatãoVerso – Contos de Luca Fiuza Ilustrados por Eduardo Schloesser

Texto: Luca Fiuza
Criação do Personagem e Ilustrações: Eduardo Schloesser
Apresentação e Edição: Barata Cichetto
Gênero: Contos/Quadrinhos
Ano: 2024
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 312
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,500

Luca Fiuza é professor de História, quadrinista e escritor. Um Livre Pensador.

Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador, entre outros, de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.

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Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
15/05/2024 13:16

A aventura nas cavernas foi baseada no fascínio e no medo que tenho destes lugares. Já visitei duas cavernas quando garoto, mas eram locais próprios para visitação e não havia perigo. O que me fascina em cavernas é o microcosmo existente em seu interior. Suas estalactites e estalagmites! A variedade de seres vivos que as habitam. O que eu temo é ficar preso naquele ambiente de eterna escuridão e não sair mais. Portanto, esta parte trama me impacta e perturba sempre que a releio.

Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
Responder a  Luiz Alberto F. dos Santos
15/05/2024 23:43

Eu idem, meu irmão, ambientes escuros e fechados me dão calafrios. Cavernas me soam como um ambiente a parte do nosso, como um planeta alienígena. Foi muito bem explorado e descrito através da sua pena. Bravíssimo!

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  Eduardo Schloesser
16/05/2024 0:34

Ao contrário dos amigos, Eduardo e Luca, nunca tive medo de lugares assim. Me assusta mais os lugares abertos e com muita claridade. Imagino que essa minha sensação, que reconheço como inusitada, se explique com os fatos ocorridos comigo na infância, eram sob luz extrema. Na escuridão eu me sentia seguro. Sei lá… Acho que sou maluco, mesmo!

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Barata Cichetto
16/05/2024 9:41

Meu amigo, Barata. Não vejo nenhuma maluquice em seus pensamentos. Eles estão de acordo com suas vivências e experiências. Eu brinquei em grutas no Parque Laje no RJ e visitei duas cavernas famosas em Minas Gerais quando menino. Não ofereciam surpresas e nem perigo. No entanto, as cavernas desconhecidas são ambientes à parte não me atraem. Assisto documentários a respeito com muito prazer, mas não me vejo explorando estes locais, entrando em passagens estreitas, ou me metendo em rios e lagos subterrâneos. Conheço gente que adora! O mesmo problema se dá com o alpinismo. Das poucas vezes que tentei, não foram boas experiências. A verdade é que não sou aventureiro. Gosto de atividades mais pacatas.

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Eduardo Schloesser
16/05/2024 8:52

Concordo com você, meu velho! Cavernas são mundos à parte. Mundos em trevas constantes que pulsam de modo totalmente diferente do mundo exterior. Muita gente aprecia cavernas. Há quem as estude.

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Plágio é Crime!

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