Arte Original: Eduardo Schloesser (Colorizado Digitalmente)

17 — Inferno Verde – Parte 3 – (Um Conto Escrito por Luca Fiuza e Ilustrado Por Eduardo Schloesser)

Durante a madrugada começou um temporal que se prolongou até ao amanhecer e pelo visto, prosseguiria pelo resto daquele dia. O calor úmido e pesado era onipresente. Zé Gatão e Karoll foram retirados da cela e conduzidos sem amarras, mas ladeados por uma pequena e carrancuda tropa até um grande salão de pedra, onde o líder e a fina-flor daquela estranha sociedade os aguardava, acomodados em uma imensa mesa granítica cheia de iguarias finas e frutos variados. Para beber o encorpado leite vindo de uma comunidade servil de cabras das montanhas nevadas, mais a sudeste. O líder das Panteras Negras recebeu seus hóspedes involuntários de maneira relativamente amável. Pequenos felídeos amarelos rajados de preto, se aproximaram diligentes, cuidando para que o felino cinzento e a ave encarnada fossem bem tratados. Enquanto todos degustavam a lauta refeição, o líder apresentou a nata da Sociedade, formada por machos e fêmeas de aparência untuosa e ociosa com ares de superioridade. Karoll levantou, curvando-se em exagerada mesura. Zé Gatão se limitou a um leve aceno de cabeça. Intimamente, detestava a empáfia dos assim chamados “bem-nascidos” que se achavam melhor do que o comum dos mortais! A seu ver, não passavam de inúteis sacos de gordura a parasitar a Sociedade!

Após o café, o líder encaminhou seus hóspedes a outra dependência do enorme palácio. Ampla, maciça, ar solene e místico. Lá os aguardava o sacerdote que Zé Gatão e Karoll já tinham antes visto na companhia do líder e seu séquito. Após uma breve conversa do poderoso mandatário com o místico, Karoll explicou ao felino taciturno que um ritual de purificação ia ser realizado. Que o grande gato nada receasse. Era totalmente indolor. Zé Gatão assegurou estar tranquilo. Dirigiu-se para um assento de pedra como indicado por meio de sinais pelo sacerdote. Sentou-se junto a um braseiro aceso de pés altos. O xamã jogou primeiro um pó negro no braseiro, seguido de algumas ervas aromáticas. Formou-se uma densa fumarada escura que envolveu o felino acinzentado. Uma cantoria monótona se elevou da boca do sacerdote. Seus acólitos lhe fizeram companhia e o som daquelas vozes em uníssono se elevou, enchendo o recinto. Por um tempo que pareceu elástico durou aquele estranho ritual. Quando a fumaça se dissipou e a canção cessou, Zé Gatão surpreendido percebeu que podia entender perfeitamente a linguagem de seus captores! O líder dirigiu-se a ele:
— Agora podemos entender-nos, ó infiel! Já não preciseis mais de intérprete, como vês!
— Incrível! Como fizeram isto? – Indagou atônito, o felino gris. O líder sorriu com condescendência, afirmando:
— Mágica, incréu! Muito além de tua limitada compreensão! Vinde comigo, tu e tua acompanhante! Precisamos parlamentar! – Com um breve olhar para o sacerdote e seus asseclas, o potentado se retirou seguido por seu cortejo com seus “convivas” entre eles.

Após percorrerem inúmeros corredores, adentraram em uma área ajardinada, protegida da chuva que pareceu a Zé Gatão e a Karoll um lugar de descanso e meditação. Havia uma grande mesa central com imensas cadeiras, tudo de pedra como era usual naquela portentosa e ciclópica edificação. Novamente foram todos servidos solicitamente pelos pequenos felinos rajados. Desta vez, uma bebida saborosa e aromática que lembrava o vinho tinto. O líder parecia mais descontraído. Em um tom quase amigável, quis saber de onde vinha o felino sorumbático e como viera parar na selva. Em breves palavras, Zé Gatão relatou suas andanças desde que deixara a aldeia dos gatos pescadores até o inesperado sequestro que o levara até ali, tanto ele quanto sua amiga emplumada. O Gatão notou um brilho fugaz nos olhos de seu interlocutor, seguido pelas seguintes palavras:

— Então és um guerreiro! Enfrentaste os perigos da jângal com galhardia! Pelos deuses! Se eu não te tivesse prometido ao Grande Senhor dos Jaguares…! Faria de ti, sem pestanejar, comandante de meus exércitos! E mais! Poderia ter em fim, o amigo e confidente que me falta em minha solidão no Poder! És um felino honrado e muito lamento ter que entregar-te à sanha dos cultistas de nossa deusa, a Serpente Emplumada!
— Poderia nos soltar e dizer que escapamos e…! – Estrilou Karoll eriçando a plumagem vermelha. O líder balançou a cabeça tristemente, dizendo: — Não é mais possível engendrar tipo nenhum de estratagema, bela ave! A mensagem de vossa captura já foi enviada! Em breve, um destacamento de Jaguares virá buscar o cinzento. Tu, porém, és livre! – Karoll meneou a cabeça, contrariada, afirmando:
— Aonde o Gatão for, eu irei! – O monarca sorriu, compreendendo. Proferiu estas palavras em tom de pronunciamento: – Felino cinza e arara! A partir de agora, vós não sois mais prisioneiros! Sois meus hóspedes e meus amigos! Espero que não quebreis a promessa que fiz ao Senhor dos Jaguares! Se intentarem a fuga, não vos deterei, mas é certo que meu povo será destruído!
— Tem a nossa palavra, majestade! Não é, Karoll? – A arara olhou incrédula para o amigo, mas uma piscadela de olho deste a fez entender que a tal promessa não valeria mais quando estivessem entre os Jaguares! “Belo consolo!” Pensou a ave, desanimadamente. Contudo, mesmo temendo os horrores do porvir, não abandonaria jamais seu amigo e salvador! Morreriam juntos!
A voz do líder, pedindo que o acompanhassem acordou Karoll para a realidade. O novo amigo chamava-se Kinich Kukulkan. Durante uma semana, o felino tristonho e a arara carmesim viveram agradavelmente no gigantesco templo como hóspedes de honra daquela incrível raça de felinos cor de ébano. Andavam livremente por suas dependências e Zé Gatão já não achava a nobreza e a Casa reinante tão antipáticas como antes.

Há dias que a chuva caía copiosamente sobre a região. Tal fato explicava a demora dos Jaguares. Quando o tempo melhorasse, certamente apareceriam para reclamar suas vítimas! Até lá, não havia nada a fazer, senão aprender os costumes daquele povo inusitado.
Durante uma tempestuosa manhã, em meio à primeira refeição do dia, Kinich quis saber sobre o mundo fora da selva, a terra de onde Zé Gatão tinha vindo e que ele chamava de Civilização. Dentro do possível, o felino casmurro contou um pouco daquela realidade ao surpreendido monarca, o qual chegou a duvidar das maravilhas, das mazelas e da quantidade impressionante de seres que viviam para além de seus selváticos domínios. Kinich refletiu um bocado, dizendo entre dentes:
— Um dia hei de anexar esta tua Civilização ao meu reino!
— Nem pensar, meu amigo! – Redarguiu seriamente o felino cinzento — Existem armas e máquinas que poderiam destruir vocês em um piscar de olhos e nossos exércitos são mais numerosos que os enxames de mosquitos que infestam suas matas! Se os civilizados um dia os descobrirem, vocês todos e os Jaguares estarão condenados à extinção! E não será a primeira vez!
— Estás me dizendo a verdade, ó Gatão?
— Estou, majestade! Meu mundo é brutal e injusto! Os governantes são rapaces e a miséria grassa nas grandes cidades! Os poderosos vivem como sanguessugas às custas desta miséria, aumentando suas riquezas e seus bens, enquanto o animal comum trabalha até morrer sem chance de melhorar de vida! – E continuou:
— Creia, sua Sociedade é completamente diferente da minha. – O felino furtou-se de mencionar as oferendas vivas devidas a deuses impiedosos e a escravização de outros povos felídeos praticados pelos Panteras. Ele mesmo estava fadado a ser sacrificado. Entendia perfeitamente que era parte da Cultura daqueles “estranhos gatos.” Contudo, em seu íntimo, não pretendia ser imolado em holocausto a nenhum deus ou deusa sedentos de seu sangue! Uma coisa era compreender aquela realidade e outra era ir docilmente ao matadouro!

Ao terminar o repasto, retirou-se com Karoll para os seus novos aposentos, enquanto seus anfitriões foram cuidar de seus afazeres, prometendo continuar a conversa ao jantar. Sozinhos e sem a presença de ouvidos indiscretos, trocaram ideias sobre seus próximos passos:
— Acho melhor nos deixarmos levar até o reduto dos Jaguares, Karoll.
— Por que, Gatão? Poderíamos tentar escapar durante o trajeto e sumir no meio da mata.
— Pura ilusão! Seríamos capturados outra vez! Lembre-se que nossos captores conhecem estas terras como a palma da mão e nem mesmo você poderia arranjar uma rota segura para escapar deles! Posso estar errado, mas acho que na toca dos Jaguares teremos maior chance de virar a mesa a nosso favor!
— Queiram os deuses! Ahhh! O que estou dizendo?! Os deuses querem é a nossa pele! Zé Gatão não se dignou a responder. Apenas pediu que Karoll parasse de se angustiar antes do tempo.

Do Livro:
ZéGatãoVerso – Contos de Luca Fiuza Ilustrados por Eduardo Schloesser

Texto: Luca Fiuza
Criação do Personagem e Ilustrações: Eduardo Schloesser
Apresentação e Edição: Barata Cichetto
Gênero: Contos/Quadrinhos
Ano: 2024
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 312
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,500

Luca Fiuza é professor de História, quadrinista e escritor. Um Livre Pensador.

Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador, entre outros, de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.

COMPARTILHE O CONTEÚDO DO BARATAVERSO!
Assinar
Notificar:
guest

9 Comentários
Mais Recente
Mais Antigo Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários
Eduardo Schloesser
Eduardo Schloesser
13/05/2024 23:10

Não tenho nada a acrescentar aqui que já não tivesse sido dito pelo escritor. Só afirmo que o Felino teve um puta azar indo parar nesta selva dos infernos, diria até que foi burrice. Mas o conto flui cada vez melhor.

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Eduardo Schloesser
14/05/2024 1:22

Interessante, este ponto que você colocou, meu velho. Em termos lógicos, foi uma burrice do Gatão adentrar na selva. Mas sabemos que o felino é arrojado. O risco em se meter em desertos ou em áreas inóspitas. Como andarilho errante, ele vai sem destino certo e seu senso de sobrevivência o faz resistir às adversidades que surjam em seu caminho. Nós com certeza, não nos meteriamos em ambientes perigosos. Eu por exemplo, não gosto de estar em certos lugares da cidade após o por do sol. Prefiro estar no recesso do lar nas horas tardias da noite. Se saio, vou a lugares conhecidos, embora fique apreensivo, dado aos índices de violência atuais. O Zé Gatão, pelo contrário está solto no mundo, vivendo por sua própria conta e risco. Poderia ter buscado outra rota? Sim. Mas acho que nem pensou a respeito. Simplesmente, seguiu em frente.

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Luiz Alberto F. dos Santos
14/05/2024 1:27

Faltou na minha explanação dizer que o Grande Gato não tem medo como nós teríamos. Ele é prudente, mas o perigo e a possibilidade de encontrar a morte fazem parte da vida dele.

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
13/05/2024 14:07

Há um detalhe que gostaria de ressaltar! Quando lida com as feras da selva, o Gatão se impõe pela força e por ações rápidas, visando anular e consequentemente matar seus oponentes! É no tudo ou nada. Já ao lidar com seres racionais ele usa suas capacidades mentais para entender rapidamente o contexto e buscar as saídas mais adequadas conforme o caso! Por isto, ele é um sobrevivente! Pode cometer erros, mas é coisa rara e logo aprende com eles. Estas são suas vantagens em relação a adversidades que levariam qualquer outro ser mais incauto à morte!

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
13/05/2024 10:51

Continua a saga. O Gatão precisa contar com sua inteligência e estratégia para lidar com a situação. Ele não é um massa bruta desmiolado e sabe a hora de raciocinar e a hora de usar os punhos.

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  Luiz Alberto F. dos Santos
14/05/2024 0:40

Só tem uma coisa que me deixa triste: em breve esta saga irá ser concluída, e sentirei muita falta dos comentários do Eduardo e do Luca. Estaria eu sendo muito exagerado, em sugerir que, mesmo depois de algum tempo, isso continuasse? Sugerir que você escrevesse novos contos, e o Schloesser ilustrasse. Bem… Sonha é sempre uma saída.

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Barata Cichetto
14/05/2024 1:54

Não, meu bom amigo, Barata! Nada exagerado! Suas palavras só demonstram que eu e o Edu fizemos bem. Nosso trabalho não passou em brancas nuvens e isto nos alegra e conforta. Ao fim desta saga em 2020, ainda escrevi algumas poucas histórias curtas, dentre as quais a do reencontro do Gatão com o galo Renato. Aquela ficou boa! Das demais, eu não gostei. Percebi que a fonte estava seca em relação a este querido personagem de meu bom amigo Eduardo. E de lá para cá, nunca veio uma ideia que realmente me agradasse. Não podemos afirmar que desta água não beberemos. Mas penso que ao encerrar o Gatão em prosa encerrei uma bonita etapa de minha vida de escritor diletante. Foram outros tempos. Mais bucólicos, talvez e graças à sua iniciativa, podemos estar aqui, conversando sobre esta longa fase de modo mais imersivo. Fato que não foi possível de fazermos no blog. Fico grato. Mas não fique triste! Ainda há muito a dizer sobre este conto em particular e sobre os álbuns do Gatão produzidos pelo nosso Eduardo. O que seria bacana, se houver interesse do Edu e de sua parte, amigo Barata. Gratidão.

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  Luiz Alberto F. dos Santos
14/05/2024 10:16

Caro amigo, respondendo do fim para o começo: claro que de minha parte há interesse, sobre quaisquer coisas que venham a produzir. Este site está sempre aberto. Conforme comentei antes, a participação, em quase diálogos teus e do Eduardo tornaram as publicações muito especiais, muito diferente das demais. Queria muito que outros autores tivessem aqui a mesma interação de vocês.

Luiz Alberto F. dos Santos
Luiz Alberto F. dos Santos
Responder a  Barata Cichetto
14/05/2024 12:47

Obrigado, amigo Barata. O por trás da obra sempre me agradou e também ao Eduardo. A chance de trocarmos ideias neste espaço é excelente e importante para gerar maiores reflexões. Quem sabe, não seria interessante estimular outros autores ou autoras publicados no site a escrever suas impressões sobre seus trabalhos? É uma ideia. Eu por meu lado estou adorando interagir com você, com o Edu e com quem mais se prontificar a isto.

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

×