Ao chegar às maciças e impressionantes escadarias do pétreo Palácio, Izayana e seu grupo foram conduzidos por um sisudo serviçal ricamente paramentado. Caminharam por uma infinidade de corredores colossais. Pararam por fim, em uma antessala e ali se quedaram a aguardar, enquanto o criado desaparecia de vista. Enquanto aguardavam, outro lacaio aproximou-se, servindo silenciosamente água fresca e alimentos leves. Ânfora, taças e pratos, forjados em ouro de alta qualidade e pureza. Não havia garfos e facas. Comia-se com as mãos, sem a preocupação de antes higienizá-las. Zé Gatão não se importou. A refeição foi consumida com apetite e a água cristalina saciou a sede. Logo depois, Izayana e o que sobrou de sua tropa foram chamados para uma audiência com a Realeza na grande sala do Trono. O felino cinzento e Karoll deixaram-se ficar na antessala, aproveitando para descansar da longa jornada. Felino e ave não trocaram palavra. Karoll apenas olhou apreensiva para Zé Gatão e este manteve-se tranquilo. A ele e sua amiga emplumada nada mais restava, se não esperar.
Karoll concordou, entendendo que não poderiam conversar livremente. Poderiam estar sob vigilância. Inclusive, no passeio do dia seguinte. A ave encarnada não quis mais pensar sobre isto! Resolveu agir como o Gatão e usufruir daquele momento esplendoroso de poder tomar um bom banho! Custava a crer que houvesse criaturas vivas, não afeitas à tão gostosa forma de higienização e relaxamento.
Uma hora depois, vestiram roupas locais, ali deixadas previamente para o uso. A vestimenta de Karoll consistia em uma saia comprida e camisa larga de algodão, coberta com um lenço multicor, para tapar os ombros. A camisa em particular, tinha flores bordadas de cores alegres. O traje do felino taciturno era composto por uma calça larga de fibra vegetal. Peito descoberto, exibindo sua potente e pronunciada musculatura. A calça era enfeitada com cores e bordados, dando um toque colorido e alegre à indumentária. Em fim, roupas frescas e agradáveis aos olhos. Aproveitaram o resto do tempo para repousar, tirando um sono tranquilo, algo impossível na jângal.
Ao cair da noite, foram convidados para cear com os soberanos e a nobre elite que compunha a Corte. A refeição foi alegre e descontraída, sem a solenidade grave da audiência. O felino gris, notou um olhar significativo da rainha em direção a ele. Fingiu nada perceber e registrou o fato como algo que poderia ter algum significado futuro.
Os alimentos eram verdadeiros manjares se comparados à alimentação frugal que tiveram os recém-chegados, em seus longos dias na hiléia virginal. O vinho era suave, semelhante a um néctar, feito de uvas, cultivadas e colhidas na base das grandes montanhas. Izayana também estava no recinto monumental e longo sentou-se perto dos seus dois amigos para conversar. Também lá estava, o como sempre carrancudo, Capitão-mor, o qual dirigiu um virulento olhar em direção a Zé Gatão. Este o encarou bem nos olhos e a expressão desdenhosa do felino cinzento, fez com que o Capitão engasgasse com seu vinho, devido a um violento acesso de cólera, pela silenciosa afronta que lhe foi nada sutilmente endereçada! Tossiu sem fôlego, o que suscitou em uma pilhéria por parte da rainha, fato que deixou o indivíduo ainda mais agastado! Conteve-se porém, suportando calado a galhofa de quase todos os presentes! Karoll, entretida em uma conversa com Izayana, nada notou. Zé Gatão não achou graça e viu que ganhara um perigoso inimigo. O felino acinzentado deu de ombros. Preocupar-se-ia com isto, no devido tempo.
Quase ao final da lauta ceia, o casal reinante se retirou para seus aposentos. O Gatão e Karoll aproveitaram para fazer o mesmo. Não sem antes ter a informação da própria Izayana de que ela seria a acompanhante durante o passeio pela cidade santuário, na manhã seguinte. Tal fato, agradou o felino gris. Era melhor estar com uma amiga do que com alguém desconhecido. Ainda assim, seria cauteloso em suas atitudes. Não por desconfiar da guerreira pintada, mas por uma prudência básica, característica de seu temperamento arredio e desconfiado. Uma vez em seus aposentos, felino e ave se recolheram após um breve desejo de boa noite. Desta vez, o sono do gato foi leve, quase como na selva. Seu instinto de preservação estava ativado ao máximo! Sabia que não havia risco imediato contra sua vida, já que era uma oferenda sagrada à deusa Serpente Bepnapatóchi. Contudo, não podia descartar alguma ação sub-reptícia, por parte de seu mais recente inimigo, o Capitão-mor da Guarda Real. Se quisesse viver até o dia do sacrifício naquele estranho reino, era mister estar diuturnamente atento.
A noite correu sem percalços. Bem cedo, de manhã estavam Zé Gatão, Karoll e Izayana tomando a refeição matinal. Um detalhe que chamou a atenção de Karoll e do Gatão foi que antes de comerem, uma oncinha bonita e esguia provou dos alimentos antes deles. Izayana explicou que a jovem felina era a Provadora Oficial. Sua incumbência era literalmente degustar toda a iguaria e bebida servidas à realeza como prevenção contra possível tentativa de envenenamento. Neste caso, seria ela é que morreria no lugar do casal governante, ou de qualquer membro pertencente à Casa Real. Embora horrível de se pensar, era uma precaução justificada, muito comum também no mundo do felino, só que em outros tempos, nas Cortes do passado distante e naturalmente naquela. Imediatamente, o grande gato descartou o uso deste expediente contra ele. Se tentassem matá-lo antes do dia fatídico, ao qual fora condenado, seria por certo, de outro modo. Até então, sua sina estava definida previamente, desde o momento em que deixando o Reino dos Panteras Negras, afundou-se nas trilhas da exuberante selva para chegar até onde atualmente se achava.
Instantes depois, saíram do grande palácio de pedra para o forte calor do sol daquela linda manhã. As ruas estavam apinhadas. À medida que caminhavam em meio aos habitantes que olhavam com curiosidade para o felino “de fora”, Izayana ia explicando fatos de sua poderosa Cultura, identificando as construções públicas, residenciais e cerimoniais. O Gatão ouvia com atenção, guardando cada palavra e procurando desde já, localizar rotas de fuga. Karoll, ao contrário, a tudo olhava entre maravilhada e assustadiça, sentindo-se esmagada pelo esplendor daquela cidade-estado! Vetusta, em sua magnificência! O lento caminhar, os levou às proximidades do posto da Guarda Real, pelo qual passaram, quando de sua chegada à cidade santuário. Os soldados guerreiros vieram rodeá-los, prestando efusivas homenagens à Izayana, chefe desta Guarda de Elite. Um único elemento dentre os demais, não agiu da mesma forma. O nefando Capitão-mor. Soturnamente, encarou a todos com evidente desprazer. Sua voz rascante e meio sussurrada se fez ouvir em meio às palavras de júbilo dos outros guerreiros:
— Cinzento…! Se tu não fosses o enviado esperado para aplacar a ira dos deuses…matar-te-ia como o maldito infiel que és! Ao menos, terei eu o prazer de ver-te manietado e sangrado em holocausto à Grande deusa, como o mero ofertório que és!
O sorriso irônico na face de Zé Gatão quase levou o guerreiro à loucura e sua ameaça fez-se vazia de significado! Arfando, segurou com a mão crispada o cabo da espada! Antes que a desembainhasse, porém, Izayana adiantou-se dizendo em tom calmo, mas incisivo:
— Chegaste ao limite do tolerável, Capitão-mor! Teu atrevimento e deselegância não mais impunes permanecerão!
— Que todos se coloquem à parte! – continuou – Eu mesma darei a merecida lição a este biltre desleal! E desde já, Capitão, destituo a ti de tuas atuais funções! Oficial já não o és e nunca mais o serás! Ficarás confinado à prisão por um tempo determinado neste posto, de onde sairás somente como mero serviçal, nos cuidados e na limpeza diária deste mesmo local!
— Jamais! Matar-te-ei antes, Izayana! Desleal és tu que preferes um estrangeiro a teu próprio povo!
— Guardas! Se o ex-Capitão me derrotar, o que falacioso o é, minha anterior ordem deve ser cumprida à risca! A morte, negada lhe deve ser! Seria um prêmio, justificado só a um verdadeiro guerreiro!
Aquilo foi excessivo para o sentimento amargo de humilhação que já acometia o não mais oficial! Soltando urros doentios, precipitou-se sobre a onça guerreira, brandindo hábil e mortalmente a sua espada! Izayana evitou facilmente o alucinado ataque, bloqueando a brutal investida do adversário! O violento clangor do combate, atraiu uma multidão significativa para as imediações do posto da Guarda. Imediatamente, o destacamento de soldados guerreiros impediu que o povaréu se aproximasse muito, de modo a não atrapalhar os contendores! O felino gris não pode deixar de se impressionar com a destreza, daquelas duas máquinas vivas de combate! Cada fibra voltada para a luta, em movimentos perfeitamente coordenados. Izayana demonstrou maior habilidade e em um movimento difícil de acompanhar, desarmou seu oponente, o qual logo sentiu o gélido contato da lâmina opositora encostada em sua jugular! O derrotado felídeo pintalgado se viu forçado a largar sua espada. Foi brutalmente agarrado por seus ex-subordinados e confinado, solidamente manietado, em uma das celas graníticas do posto.
Uma ovação apaixonada se elevou da multidão, acompanhada pelos brados da soldadesca em êxtase! Izayana sorriu condescendente e convidou o felino acinzentado e a arara a prosseguir o passeio. Zé Gatão precisou cutucar a ave encarnada para que se movesse, profundamente abalada pelo ocorrido!
Ao entardecer, voltaram ao palácio. Como tinham almoçado em uma das tantas tavernas da cidade santuário, arara e felino dispensaram a refeição oferecida por um dos tantos serviçais escolhidos para atendê-los. A guerreira Izayana se despediu. Contudo, antes que saísse, um mensageiro régio, felídeo branco de área montanhosa, entregou-lhe um comunicado vindo do soberano. Era um convite para que Zé Gatão na manhã do dia seguinte participasse de um ritual de purificação espiritual. O acinzentado aquiesceu. Retirou-se o arauto e outro servo, um pequeno gato orelhudo de tez pardacenta e ar vivaz, os conduziu ao amplo aposento onde estavam instalados. Banharam-se e foram cedo repousar das canseiras daquele longo dia.
Amanheceu sob forte e pesado temporal. A alta umidade do ar, potencializou o calor sempre reinante. Após a refeição matinal, uma serviçal, oncinha de ar delicado, veio buscar Zé Gatão para o ritual. Karoll foi levada por um pequeno lacaio, um lagartinho esverdeado de movimentos elétricos, para conhecer e fazer companhia aos filhotes reais, na área mais íntima e reservada do palácio de pedra.
O felino gris foi conduzido a um grande cômodo onde o esperavam três sacerdotes ricamente paramentados. Gentilmente, o gato grande foi convidado a se acomodar em um banco de pedra, no centro do vasto aposento. Logo, se achou rodeado pelos três ritualistas jaguares. Cada um, lhe deu para beber, uma aromática e distinta infusão, em diferentes taças de ouro puro. As mesmas, ricamente adornadas com pedras de alto grau de preciosidade. O sabor de cada uma das beberagens, provocou estranhas e variadas sensações no Gatão. Desde tremores intensos nos membros superiores e inferiores, calor e frio extremos pelo corpo todo. A última sensação foi um delicioso torpor que trouxe uma tranquilidade interior nunca antes sentida pelo felino. Parecia que todas as suas dores, dúvidas, medos e sofrimentos lhe tinham sido suavemente arrancados da alma! Em seu íntimo, porém, sabia ele, ser algo temporário! O que era e como havia sido forjado pela Vida, continuaria com ele até seus últimos dias.
Enquanto prosseguia o longo ritual, os sacerdotes entoavam um cântico ritmado e monótono, que evoluiu para uma canção maviosa que lembrava o gorgear delicado, das aves canoras. Pareceu a Zé Gatão que seu espírito estava se separando de seu corpo físico, soerguendo-se para um outro nível, além das percepções da existência material. Um silencioso e luminoso torvelinho dominou seus sentidos! Viu-se em outro aposento, fora do palácio ciclópico! Sentiu-se no interior do Grande Templo Sagrado, onde era proibida a presença dos impuros, ou de meros mortais. Sua essência incorpórea, penetrou em um ambiente dominado por densas trevas! Silencioso, solene. E nesta escuridão, vislumbrou o cintilar de olhos enormes, reptilianos! Ouviu um sibilar que continha estas palavras: – Felino enviado…! Logo tu estarás devidamente purificado de corpo e alma! Então será a hora de nos avistarmos…! Não temas! Sinto eu, o medo e o ódio que carregas dos seres da minha espécie! Tens tuas razões, reforçadas por tua SINA! Repito! Nada temas! Prepara-te em espírito para este encontro! Teu corpo já o está, mas o resto depende exclusivamente de ti!
A voz silenciou. Incrivelmente, o Gatão não sentiu maldade alguma naquelas palavras, pelo contrário! Por trás daquela voz, havia uma sabedoria além de sua compreensão! Sabia ser notório que certas grandes serpentes eram tão sapientes, quanto raríssimas. Criaturas consideradas mortais e odiosas! Apesar do medo atávico que ainda experimentava, seu ódio ao desconhecido réptil, arrefeceu um pouco! E uma onda de tranquilidade o inundou, proveniente do ser oculto sob o manto da escuridade. Lentamente, sua alma imortal reuniu-se outra vez ao seu corpo mortal, não sem causar um forte choque, como se da liberdade voltasse ao cárcere!
Tomado por forte sonolência, o Gatão, auxiliado pelos sacerdotes, foi deixado em uma sala contígua para repousar em uma cama granítica, mas macia, devido a um grande colchão recheado de penas de aves coloridas. Ali, o grande gato entregou-se a um sono reparador que duraria quase a tarde inteira.
Neste ínterim, Karoll estava brincando com os filhotes reais. Foi amizade à primeira vista! Era um casalzinho muito educado e carinhoso. Em meio aos divertidos folguedos e às risadas alegres, ficaram sob o discreto, mas vigilante olhar da aia monárquica, uma onça um pouco acima do peso, muito agradável, a qual tratou a arara com bastante familiaridade. Karoll relaxou e entregou-se aquele idílio, meio esquecida do medo constante que sentia naquela cidade gigantesca! Contudo, no fundo, não conseguia se desligar da verdadeira razão de estarem ali! Seu amigo, o Gatão seria brevemente ofertado em sacrifício à sanguinária deusa serpente que regia os destinos daquele reino! Precisavam os dois, de alguma maneira escapar deste fado cruel. Durante a pausa feita para o almoço, ficou a dar tratos à bola, buscando uma saída! Mas por mais que refletisse, não conseguia ter nenhuma boa ideia. O gato cinzento era muito inteligente e Karoll contava com ele para alcançar o Livramento! Se ele morresse, ela ficaria para sempre prisioneira naquela espécie de gaiola dourada. Tal constatação, sombreou sua face, mas o casal de filhotes em sua inocência pueril e a avantajada aia em sua bondosa ingenuidade, nada notaram.
Aos poucos, Zé Gatão começou a despertar daquele sono magicamente induzido. Ergueu-se ainda estremunhado. Uma bela serviçal felídea, em trajes diáfanos serviu-lhe água fresca e silenciosamente, o guiou por um corredor que terminou em uma sala suntuosa, onde em tronos dourados se achavam o monarca e sua esposa. Ambos saldaram o recém-chegado com um breve sorriso. O monarca disse em tom calmo e cordial:
— Estás agora purificado, ó Enviado! És portanto digno do beneplácito da grande deusa serpente e seus favores! A partir de agora ficarás conosco, que somos os diletos filhos do Sol fulgurante, até o ansiado dia, no qual te apresentarás diante do altar no Templo Sagrado e verterás teu sangue, hoje livre dos pecados deste mundo para honrar nosso povo e conquistar a proteção eterna das divinas forças regentes da Ordem e do Caos. Tanto no mundo físico quanto no espiritual.
O gato fez uma curvatura de cabeça. Poderosa era a magia dos sacerdotes. A compreensão daquela estranha Cultura como nunca havia se descortinado diante de seus olhos. Tinha a impressão que era parte daquele dinâmico universo, quase como se tivesse ali nascido e crescido. Portanto, um lado seu estava até conformado com o porvir. No entanto, uma pequena centelha de seu ser se contrapunha, e lhe dizia que tinha que sobreviver! Situação irônica! Em muitos momentos de sua vida desejara morrer, descansar das labutas, das tristezas e decepções! Mas um forte instinto de conservação animal, o fazia lutar contra todas as adversidades e continuar por mais um dia. Era a razão a lutar com o instinto! Normalmente, o segundo sempre vencia.
A convite do casal monárquico, sentou-se com ele, em uma grande mesa de pedra alva como a neve. Em seguida, dois musculosos felídeos escravizados, pintalgados, mas de tez negra serviram uma fragrante bebida escura, em taças esmeraldinas. O casal de monarcas ergueu as suas, de modo ritual, sendo prontamente imitados pelo Gatão. Disse o rei:
— Xocoatl,1 a bebida sagrada! Oferta dos deuses! Podendo ser ingerida apenas pelas divindades, rebentos seus e purificados como tu! Beba conosco, pois, ó Enviado!
A saborosa bebida foi consumida com vagar e evidente prazer. Depois, o cinzento e o casal soberano foram passear por um amplo jardim interno, onde linda e exuberante vegetação, composta também de flores enormes e perfumosas, cresciam protegidas da chuva intensa que caía lá fora, desde a aurora.
Naquele ambiente tranquilo e agradável, caminharam, conversando. Então, a rainha indagou:
— Ó Enviado, os sacerdotes falaram que durante tua purificação, te avistaste em espírito com Benapatóchi, a deusa…serpente emplumada que rege do Universo o Destino! És tu um privilegiado! Somente eu e meu real esposo, como filhos diletos do Sol temos tal honraria! Como é lícito que tu, mero mortal, ainda que consagrado tenha tido tal deferência?
— Talvez por seres um valoroso guerreiro e não um escravo!
O monarca continuou:
— Até então, as oferendas nossas aos deuses consistiam de escravos ou de outros povos felinos submetidos ao Grande Império, em geral, fêmeas jovens e virgens ou machos saudáveis de forte constituição física. Contudo, na Cosmogonia2 Jaguar, um Enviado dos deuses, um dia viria para honrar e se entregar à Benapatóchi, deusa serpente, criadora e mentora de tudo o que há!
Pela primeira vez naquele monólogo solenemente sussurrado, Zé Gatão indagou com voz alta e clara:
— Vossas Majestades têm a certeza de que sou este dito personagem?
Foi a rainha quem respondeu:
— Em todos estes anos de sacrifícios de sangue aos vários deuses e deusas do panteão sagrado, nunca Benapatóchi se interessou por nenhuma das ofertas feitas, pois a ela só a máxima oferenda seria aceita! À tua chegada, os nossos sacerdotes identificaram a ti como o Esperado, descrito nos Divinos Pergaminhos: um ser poderoso, vindo de terras distantes, olhar de quem muito viveu! Alma perdida nas sombras da dor, mas, ao mesmo tempo, pungente! Guerreira! Tu o corporificas! Dúvida não há!
Um intenso brilho havia nos olhos da soberana, bem como na voz, uma paixão que mexeu com o felino gris! Que incrível povo era aquele! Em seu íntimo estava quase a se entregar sem protesto, ao ritual que lhe tiraria a vida! Loucura! Pensou! Mas queria a Morte, sempre a quis! Seu abraço gélido e final! Descansar, por fim, das tribulações do viver!
Ficaram por um momento, silenciosos. O monarca felídeo então, falou:
— Ficarás nesta especial área do palácio até a sagrada noite do ritual de ofertório no Templo de Benapatóchi! O maior da cidade santuário! À noite, te guiaremos nós, na última cerimônia de purgação a fim de que imaculado, possas tu te apresentares diante da deusa no momento que está a se aproximar!
Quis saber, o felino gris:
— E Karoll, a arara-vermelha?
— Nada temas, ó Enviado! Ela será para todo sempre a Guardiã dos Augustos Filhotes que um dia hão de herdar este Império. Enquanto vida tiver, nenhum mal lhe há de suceder! Tens a minha palavra!
O grande gato foi conduzido a um enorme cômodo, onde o esperavam bebidas frescas e alimentos suaves. O majestático casal o deixou a sós. Uma grande e convidativa piscina de águas frias, lhe trouxe alívio do forte calor sempre presente e ali relaxou, satisfeito. Depois, comeu, bebeu e logo no enorme leito, entregou-se ao descanso. Sentia-se seguro, embora sobre sua cabeça pendesse a faca ritualística sacerdotal! Não a temia, porém! A princípio, receberia sorridente, o golpe mortal! Se prevalecesse seu natural instinto de conservação, então lutaria com unhas e dentes por sua vida! Decidiu pensar nisto quando de sua proximidade! Melhor seria por enquanto, analisar todas as possibilidades! Havia algo de estranho nos modos na soberana! Um jeito que acendeu uma luz amarela em seu espírito vigilante! Um diferencial que precisaria depressa entender! Decisório talvez, no desenrolar dos acontecimentos presentes e futuros! Quem sabe?
O forte temporal diurno cessou ao cair da noite. Uma brilhante e enorme lua cheia dominava o céu estrelado. Zé Gatão despertou, se sentido bem descansado. Um dos sacerdotes veio buscá-lo. O felino acinzentado foi levado a uma grande câmara cerimonial. Dispostos pelo aposento havia vários tapetes finamente trabalhados, cujo o posicionamento, formava um triângulo. No centro se achava um braseiro aceso que exalava um odor adocicado. Junto do braseiro, um outro sacerdote aguardava em silêncio. Por uma porta, à direita da qual, tinha entrado o Gatão com seu circunspecto acompanhante, penetrou naquele recinto, o casal real. Acomodaram-se os majestáticos cônjuges, lado a lado, cada qual em seu tapete.
O sacerdote do braseiro, adiantou-se, dizendo:
— Ó divina deusa Benapatóchi! É chegada a hora da última fase da purificação, da qual participarão o Enviado, assim como os dois: filho e filha diletos do Sol, Governantes do Povo Jaguar! Te glorificamos, ó poderosa e em teu nome, esta cerimônia tem início!
O ritual começou ao som de cânticos melodiosos, mesclados com orações contritas, por todos realizadas, menos por Zé Gatão. Embora conservasse uma atitude respeitosa, estando de certa maneira versado na liturgia, daquele culto, pertencia a outra realidade e mesmo a magia poderosa que lhe dera conhecimento e compreensão dos usos e costumes daquele povo, não era suficiente para transformá-lo em um deles.
Ao término das preces, uma bela jovem e imaculada felídea em vaporosos trajes brancos, trouxe em um recipiente de cerâmica, uma certa quantidade de fungos espetados em palitos de fina prata. Cerimoniosamente, entregou o receptáculo para o sacerdote do braseiro. Em seguida, auxiliou-o a passar os palitos com os fungos, um a um na fumarada cinérea que do braseiro se elevava. Ao contato com a fumaça, a tonalidade branca do agárico, mudava para o pardacento e um odor acre, podia ser sentido no ar. Então, a jovem distribuiu os fungos entre os presentes, com a instrução de os mastigar lentamente. Um pequeno copo de cerâmica avermelhada foi também entregue a todos. O mesmo continha um vinho suave e adocicado que servia para minorar o sabor amargo dos fungos e ajudava a relaxar mentes e corpos. Enquanto mastigava o seu quinhão e bebericava aquela espécie de néctar alcoólico, o felino gris começou a sentir um torpor. Primeiro na língua. Depois o mesmo tomou-lhe o corpo, trazendo consigo, uma forte sensação de relaxamento.
Aos poucos, sentiu uma vertigem como se estivesse caindo em um abismo sem fim! Não houve medo, simplesmente foi se entregando aquela inusitada experiência, sem nenhuma resistência. Uma escuridão densa e profunda foi se imiscuindo aos poucos e em meio a ela, sentiu as presenças do rei e de sua esposa, bem como uma outra presença muito vívida que exalava grande poder! Era Benapatóchi, a serpente emplumada que surgia diante deles, em meio a uma esplendorosa luz azulada, afastando as trevas e comunicando aos três felinos um sentimento de paz e tranquilidade! O Gatão achou que se estendesse a mão tocaria na cabeça enorme da serpente, que os olhava inquisitivamente. Seria real? Ou apenas uma alucinação provocada pelos fungos sagrados? Quem o poderia dizer?
A “deusa”, como que flutuando diante do Gatão e seus acompanhantes, dirigiu-se aos presentes. Sua voz penetrando fundo em suas essências, vinda de toda a parte e ao mesmo tempo de lugar nenhum: – Ó majestáticos filho e filha do Sol…ó Enviado de outras terras! Purificados estais vós, o suficiente para que tua deidade se dirija a vós, descendo da Onipotência ao mero Plano Mortal! Um particular colóquio faz-se necessário entre MIM e o Enviado dos deuses. Assim, o casal real vai retornar ao Mundo dos Viventes e lá aguardar meus divinos ditames por meio dos sacerdotes sagrados! Assim diz Benapatóchi! Mãe de todos e inconteste Rainha do Universo!
Como que por encanto, o casal real esvaneceu-se, tal qual névoa sob o calor do astro-rei. Zé Gatão, voltou-se para a gigantesca serpente, a qual tornou a falar, dirigindo-se a ele, somente. Começando com a linguagem empolada ali reinante, mas aos poucos ficando mais solta, quase como o falar do mundo civilizado: – Ó grande felídeo de plagas longínquas…! Tua “deusa” sabe que és formidável e galante guerreiro, como nunca se viu até então, nesta selva! Ah! Crês tu que não sou eu exatamente o que afirmo ser…! Em verdade, não te afirmarei e nem o negarei! Tu és sagaz o suficiente para ver além dos ritos e das meras aparências. Sou eu no entanto, velhíssima e sapiente e tu o bem sabes, pois conheces ofídios de minha categoria, embora raros sejamos neste mundo! Minha espécie é temida e odiada pelos seres de sangue quente como você! E reconheço que há razão para tal, pois somos inimigos viscerais desde a Criação do Universo, por razões que se perderam nos meandros do tempo…!. Nisto também acreditava eu, quando há éons sem conta encontrei refúgio do ódio e da perseguição dos mamíferos entre os antepassados do povo jaguar…! Meu próprio ódio a todos as criaturas homeotermas extinguiu-se e adotei este povo antigo, sua Cultura, sua linguagem, em fim, os seus costumes, sendo eu devido a minha aparência e inteligência, aceita como uma entidade divina do panteão sagrado de deuses e deusas pelos séculos subsequentes, me tornando para os jaguares, Benapatóchi, a serpente emplumada encarnada na Terra! Oh! Não pense que os iludi! Já era eu sem o saber, parte integrante de suas crenças religiosas e minha aparição, apenas corroborou as velhas profecias de…digamos, minha esperada volta! Tive séculos para aumentar meus poderes e sabedoria de maneira exponencial! Estamos aqui reunidos de modo imaterial, enquanto nossos corpos físicos permanecem no mundo carnal! Sua mente cheia de dúvidas está. Não as sanarei, ainda assim…!
Tão pouco falarei de seu futuro, o qual se descortina diante de mim, graças a meus dons de pitonisa! Sinto que você intui, então que não morrerá aqui! Mas como sabe perfeitamente, o passado é o que já foi, portanto, imutável! O presente é o que é…! O futuro é como uma estrada desconhecida, de várias rotas…! Posto isto, nossa conversa está encerrada! Não mais nos encontraremos! Volta você ao palácio…! Volto eu para o grande Templo Sacro, onde você antes nas trevas, e apenas em espírito, teve um vislumbre da minha forma corpórea! Adeus, ó felino de longe! Não queira mal a este povo, apesar do destino que te aguarda!
Em meio a uma espiral de sensações, o felino cinzento despertou, totalmente a sós em seus aposentos, estendido em seu leito…confuso! Muitas perguntas e nenhuma resposta a turbilhonar em sua mente e assim adormeceu suavemente.
Algumas horas após, o amanhecer, o felino cinzento despertou. Parecia que havia dormido por séculos. Se sentia bem descansado e na verdade, faminto. Neste ínterim, uma mimosa serviçal, em verdade uma delgada jaguatirica adentrou no recinto. Portava uma bandeja com uma refeição que consistia de frutas frescas, dentre elas, algumas bananas. Uma ânfora de água fresca e uma taça grande, ricamente adornada de pedrarias preciosas. Tudo de prata da maior pureza. O felino agradeceu, a gatinha fez uma mesura e retirou-se apressadamente. O grande gato concentrou-se então, a atender os anseios mais primais do seu organismo e praticamente, devorou as frutas e esvaziou a ânfora d’água. Assim que terminou, a jovem jaguatirica ressurgiu como que por encanto e prestimosamente, retirou a bandeja com as migalhas da refeição, ânfora e taça vazias.
Pouco tempo depois, um jovem e robusto jaguar entra no aposento. Enverga a indumentária típica dos sacerdotes. Em uma voz modulada e agradável, apresenta-se. Chama-se Quéktolpec. Traz consigo uma pequena pilha de códices,3 a qual entrega nas mãos do felino taciturno, recomendando que a leia cuidadosamente. Afirma o religioso, que aquele dia será dispensado para leitura e meditação. O gato gris não será incomodado. Terá pausas para as refeições e descanso. No princípio da noite, receberá a visita de uma sacerdotisa para um último ritual de aceitação dos usos e costumes religiosos do povo jaguar, bem como a da benevolente tutela espiritual da deusa serpente no seu viver, até o sacro instante do sacrifício final.
Uma manhã carrancuda e chuvosa surgiu. Um frio gélido se fazia sentir, penetrando nos ossos, forçando cada habitante que se atrevia a sair à rua a bem proteger-se com vestimentas de lã alva, de lhamas montesas, escravizadas. Camelídeos especialmente criados para fornecer vestes a seus amos felinos. Indumentárias apropriadas para estes raros momentos, quando os ventos glaciais desciam das altas montanhas nevadas a leste, se derramando impiedosamente sobre a região, acompanhados de uma gelada chuva fina e intermitente.
Com o corpo curvado sob a força das rajadas que gemiam lúgubres ao se imiscuírem entre as ruas e habitações da urbe santificada, Izayna caminhava penosamente em direção ao posto da Guarda Real, onde estava confinado o ex-capitão-mor daquela importante e tão honorável corporação. Aguerrida e poderosa instituição, cuja missão era proteger o Reino Jaguar das ameaças tanto externas quanto internas à sua integridade secular.
Ao aproximar-se do local de destino, a guerreira foi saudada silenciosa e respeitosamente pelos sentinelas. Com um breve movimento de cabeça e um leve sorriso, a onça retribuiu o cumprimento de seus comandados. Adentrando pelos umbrais da pesada construção de pedra, encontrou uma das guerreiras remanescentes da grande expedição, na qual foram buscar o estranho felino cinzento para o ritual sacrificial, no distante reino Pantera Negra, tributário do Império Jaguar. Estavam a conversar animadamente, quando de um cômodo adjacente, emergiu o decaído ex-oficial, rebaixado ao papel de um simples serviçal. Silente, mas cioso de seus afazeres, varria o chão, organizava o ambiente, trazendo tudo esmeradamente limpo. Não levantou os olhos para Izayana. No entanto, esta sentiu o ar crepitando, enquanto um evidente e surdo ódio fervilhava no coração do outrora poderoso personagem! Pertencente a uma respeitada e antiga família guerreira, seus parentes protestaram junto aos canais competentes. Solicitaram uma audiência com o casal soberano. Foram contudo, atendidos pelo grão-vizir. Este se dignou a afirmar que a punição fora branda por parte da chefe da Guarda Majestática! Pelas Leis do reino, o insolente, desrespeitoso e hoje lacaio, deveria ter sido sangrado como um porco do mato, sem a menor comiseração.
A fabulosa cidade santuário era uma grande metrópole incrustada no meio da selva e todos os dias, desde as primeiras horas da manhã, uma intensa atividade despertava em seu interior! Industriosos, seus habitantes trabalhavam em diversas áreas que iam do artesanato à ourivesaria e também a lapidação de pedras preciosas! O grande império Jaguar comerciava com outros povos felinos a ele submetidos. Não havia o conceito de dinheiro. Era uma verdadeira troca de favores entre os habitantes, baseada mais na palavra dada do que na assinatura de documentos, embora o houvesse em certa medida. A Sociedade era altamente hierarquizada. Cada qual conhecia sua posição e o seu papel dentro da coletividade. Os casos muito graves eram resolvidos pelo grão-vizir e bem raramente, a Casa Real interferia nestes assuntos do cotidiano. Não existia pobreza. O Estado de cunho teocrático geria equilibradamente o administrativo e o social. Não havia desemprego. O saneamento básico era superior! A imensa urbe possuía um eficiente sistema de esgoto subterrâneo, onde os dejetos eram reaproveitados na agricultura. A água era limpa e abundante! A selva e os campos cultivados montados em estruturas semelhantes a degraus de uma escada monstruosa, forneciam o alimento. Aliás, bem variado. Eram consumidos tubérculos de diversos tipos, milho, tomates, cebolas e uma cenoura agigantada, mais nutritiva do que a cenoura comum. A caça fornecia carne e a anta, a capivara e certos pequenos símios era os seres mais procurados sendo preparados, bem como, servidos, tanto em casas de família como nos restaurantes e tavernas. No geral era uma Sociedade quase perfeita, mas tinha também suas idiossincrasias, como já foi visto em algumas situações, desde a chegada do Gatão e de Karoll aquele reino escondido.
O casal de filhotes reais, tomava seu desjejum. Como de costume tinham acordado bem cedo. Karoll se achava em um aposento próximo, preparando uma nova rodada de brincadeiras para aquele dia. A arara era muito imaginativa e de todas as babás que os filhotes já tiveram era a melhor! Logo o casalzinho se juntou à alegre e paciente ave! Brincaram o dia todo, só parando para fazer as refeições e tirar uma sesta nas horas mais quentes. No fim do dia, a rainha apareceu e ficou deliciada com o grau de intimidade que suas crias tinham com a nova ama-seca. Com a entrada da soberana no recinto, todos os serviçais se curvaram, Karoll, inclusive. Com um gesto de afabilidade, a potentada dispensou as formalidades de praxe e tal qual uma mãe comum abraçou com carinho seus amados infantinos que sequiosos correram para os braços da mãe que pouco viam, devido aos afazeres do cargo que ocupava. Sorrindo, a soberana disse que o rei viria amanhã cedo ter com os filhotes, ainda que fosse por pouco tempo. Após a saída da rainha, as brincadeiras continuaram do ponto onde tinham parado. Apesar da alegria e descontração, Karoll não podia deixar de pensar no seu amigo Gatão. Soubera que ele estava isolado e que estava passando por rituais purificadores. O dia fatal se aproximava! Não para ela, mas para o grande gato! Soubera que morrendo ele, seu destino era viver no Reino Jaguar até o fim de seus dias. Teria segurança, proteção e o carinho do casalzinho real! Mas a que preço! Preferiria fugir dali, ao lado de um Zé Gatão vivo! Esta incerteza, este temor eram as únicas coisas que a entristeciam em meio aquele feliz devaneio que ora experimentava.
Aposentos reais. O rei e sua esposa conversavam. A noite caía. Os archotes nas paredes ardiam mansamente, trazendo uma luz fugidia ao ambiente. A rainha foi a primeira a iniciar o colóquio:
— Sinto a ti pensativo estes dias, esposo meu…!
— De fato, real esposa! Muito pensado tenho eu no Enviado dos deuses! No felino cinzento que de longe veio.
— Ser pitoresco…!
— Mais do que isto! Um grande guerreiro, um animal íntegro! Talvez o amigo e aliado que falta a mim e a ti! Não seria subserviente como todo mundo, mas um quase igual!
— O fato de não ser nobre e filho direto dos deuses não diminuem o cinzento perante os olhos meus! Não viste como a deusa serpente por ele se interessou! Excluindo a nós de parte do ritual sagrado em espírito!
— Tens razão, minha rainha! Se pudesse eu, o liberaria do sacrifício e convidaria o nobre guerreiro a viver entre nós, coberto de altas honrarias!
— Também eu o apreciaria, mas não podes contrariar o Destino!
— Bem o sei, minha dama e pela primeira vez, o lamento!
Enquanto falavam, alheio a este diálogo, o Gatão terminava de ler o último códice entre maravilhado e intrigado com aquela Cultura, tão velha e ainda assim pujante! O que os estudiosos e arqueólogos do seu mundo dito civilizado, não dariam para estar ali, no seu lugar!
Fora do palácio, no límpido céu noturno ergueu-se uma maravilhosa lua cheia amarelada que a medida que subia no firmamento estrelado, assumia uma tonalidade prateada, derramando sua luz fantasmagórica sobre a cidade santuário escondida na jângal.
Mais um capítulo se encerra. O DESTINO e a MORTE estendem cada vez mais suas mãos gélidas e pútridas em direção a Zé Gatão!
16/05 a 16/08/20.
Originalmente Publicado em:
https://eduardoschloesser.blogspot.com/2020/10/ze-gatao-inferno-verde-um-conto-de-luca.html



Do Livro:
ZéGatãoVerso – Contos de Luca Fiuza Ilustrados por Eduardo Schloesser
Texto: Luca Fiuza
Criação do Personagem e Ilustrações: Eduardo Schloesser
Apresentação e Edição: Barata Cichetto
Gênero: Contos/Quadrinhos
Ano: 2024
Edição: 2ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 312
Tamanho: 16 × 23 × 1,80 cm
Peso: 0,500
Luca Fiuza é professor de História, quadrinista e escritor. Um Livre Pensador.
Eduardo Schloesser, Jaboatão dos Guararapes, PE. é desenhista, quadrinista, ilustrador e escritor, criador, entre outros, de Zé Gatão. Também é o ilustrador de A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe. Livre Pensador.





















E ZÉ GATÃO segue para seu suplício um tanto conformado, eu até entendo, seria uma forma de se desconectar deste mundo tenebroso sem ter que tirar a própria vida. Uma forma serena de descansar por toda a eternidade…..mas arde nele a brasa intensa do lutador, do sobrevivente……vamos ver.
Você conhece bem a sua cria, meu velho! Por mais que às vezes o felino queira se entregar aos braços da Morte, seu poderoso instinto de sobrevivência prevalece! Ele nasceu brigando com e pela Vida! Pode estar meio anestesiado pela mística do povo Jaguar, mas como sabemos, que com o Gatão tudo é possível!
Barata e Eduardo. Acabei de ler uma matéria que falava a respeito de um remake dos Trapalhões lançado pelo Canal Viva e pela Globo em 2017. Foi um completo fracasso e teve que ser descontinuado. Explicação dada: falta de química entre os novos Trapalhões. O humor adaptado aos tempos atuais não era engraçado. Não conseguiram replicar a essência do original. Ou seja é vital ter cuidado ao trabalhar com uma produção tão marcante como foi Os Trapalhões! Isto vale para qualquer obra já consolidada com a qual se queira mexer. É possível desenvolver uma ideia inovadora e interessante. Vide Scarface de 1932 e o de 1983. Estes dois filmes funcionaram, cada qual a seu modo! Ainda assim é um risco que deve ser encarado com muita seriedade! Quando então você pega um personagem de outro autor para produzir contos ou HQs, você tem que respeitar a essência deste personagem e todas as suas peculiaridades que o autor/criador conferiu a ele! É claro que é inevitável que algo pessoal do novo autor se insira naquele personagem. Fato que é compreensível, desde que não o descaracterize. A matéria dos Trapalhões que li é um verdadeiro ensinamento. Para manter a fidelidade ao que o Gatão representa, mantive com o Eduardo muitas conversas e um acompanhamento para não divergir e para que as diferenças que viessem a surgir entre a minha versão e a dele soasse criveis e aceitáveis. Como se o Zé Gatão tal qual todos nós fosse um ser multifacetado, sujeito a reflexões, mudanças e permanências.
Digo, soassem. A falta de revisão dá em erros de concordância. Estou ficando um velho impaciente publicando logo sem reler!
A parte 6 é o princípio de uma nova fase. Contrastando com a sucessão de perigos intensos vivenciados na grande selva, a narrativa é mais lenta, contemplativa e mística, até! Não que não houvesse uma série de ameaças no Reino Jaguar. Tentei a partir deste capítulo, desenvolver uma trama mais intimista e com elementos das crenças maias e astecas mescladas. Me permiti a alguma licença poética, já que não é um texto histórico, mas acima de tudo, uma história ficcional.
Gostei de descrever o palácio real e os personagens do Reino Jaguar, bem como o ambiente relacionado a este poderoso Império. Foi uma experiência textual muito desafiadora. Precisei estudar a História verdadeira dos povos maias e astecas com muito cuidado, realizar anotações à parte, além de uma visão comparativa, pinçando, a meu ver, o que seria mais relevante da Cultura de cada um daqueles povos antigos e transportar estas informações para o universo do Gatão. Quero asseverar que os desenhos do Edu corporificaram visualmente os personagens do Reino Jaguar. Fato que enriquece o texto e o complementa! Mais uma vez, me repetindo: sem as ilustrações, a narrativa perderia muito da sua força! A prova se mostra no impacto que elas causam, mesmo sem a leitura do texto.
Luca, meu amigo. Seu texto é muito forte e bem escrito. Quanto às ilustrações do Eduardo, fiz questão de colocá-las em tamanho grande, para que possam ser melhor apreciadas.
Só fico um pouco triste, porque amanhã será publicado o último conto dessa série. Vou sentir falta dessa interação.
Aliás, não sei se já convidei, se não faço agora: se tiveres outros textos teus, e quiser publicar, as portas do site estão escancaradas.
Meu amigo Barata. Suas palavras são lisonjeiras. Foi seu interesse e estímulo que me conduziram a comentar com alegria esta saga, da qual tanto gosto. Quando a releio, encontro algumas imperfeições que me escaparam, apesar de a ter revisado mesmo durante a sua revisão. Mas penso que ela deve ficar exatamente como está, pois espelha um determinado período de minha vida. Também me entristeço pela história estar terminando, mas faz parte. Aventuras sempre possuem início, meio e fim. Agradeço mais uma vez seu apoio e seu empenho. Independentemente de qualquer coisa, seu site se revelou o lugar certo para o retorno dos contos do Gatão, pois encontrou uma ótima acolhida aqui! Podemos sim, conversar sobre colocar outras produções pessoais minhas no seu site. Para mim, será um enorme prazer. Forte abraço. Podemos conversar pelo meu e-mail que está abaixo.
[email protected]
A parte 7 se aprofunda mais no mundo místico ligado às crenças do povo Jaguar. E involuntariamente, o Gatão se torna parte do mundo mitológico e espiritual dos felinos pintados. Tal fato, o atira numa relação que mistura divindade com rituais de morte, tão ao gosto dos maias, astecas e outros povos que realmente habitaram as Américas do Sul, Central entre a Nicarágua e a Peninsula do Yucatán, bem como o México propriamente dito.