Toda censura existe para impedir que se questionem os conceitos e as instituições do momento.
— Bernard Shaw
Ouça o Conteúdo
“Fahrenheit 451”, escrito por Ray Bradbury e publicado em 1953, é um dos livros mais conhecidos, especialmente entre os leitores que apreciam ficção científica e, especificamente, distopias. A história de bombeiros que têm por trabalho não apagar incêndios, mas queimar livros, correu o mundo desde seu lançamento, tendo também sido adaptada para filmes em 1966 e 2018.
Desde o seu lançamento, o romance foi submetido a várias interpretações, focando-se principalmente na queima de livros como forma de supressão de ideias dissidentes. O livro reflete importantes temas inquietantes da época de sua escrita, deixando muitos interpretarem diferentemente do que pretendia Bradbury. Entre os temas atribuídos ao romance estão a “força destruidora de pensamentos” da censura nos anos 50, os incêndios de livros na Alemanha Nazista que começaram em 1933 e as horríveis consequências da explosão de uma arma nuclear.
Entretanto, o autor afirmou em inúmeras oportunidades que “Fahrenheit 451” não trata de censura, mas sim de como a televisão destrói o interesse pela leitura. “Eu quis dizer qualquer espécie de tirania, em qualquer parte do mundo, a qualquer hora, na direita, na esquerda ou no centro.”
Ironia do destino, uma edição censurada foi publicada em 1967 sem o conhecimento de Bradbury, removendo palavras como “droga” e “inferno”. Edições posteriores (com todas as palavras, sem omissões) incluíram um epílogo do autor descrevendo este evento e outros pensamentos adicionais sobre censura e revisionismo “bem-intencionados”.
Quando o autor rebate de forma tão repetida a interpretação equivocada, segundo ele, de seus leitores, está, de certa forma, censurando-os. É como se dissesse: “Não, não pensem assim, há a maneira correta de interpretar o que escrevi.” Afirmar que “Fahrenheit 451” não trata também de censura, com a absurda queima de livros, do qual o autor foi contemporâneo, é um tanto estranho, mas há de se lembrar que ele é apenas um escritor de ficção científica.
Todas as metáforas utilizadas na história remetem à censura, como as “Pessoas-livro”, uma espécie de sociedade secreta onde cada pessoa guarda na memória uma parte de um livro e assim o transmite adiante. A referência ao Samizdat na União Soviética de Stalin, onde pessoas usavam papel carbono, máquinas de escrever e outros métodos para manterem vivos e em circulação textos proibidos, não é mera coincidência. Até certo ponto, o protagonista, Guy Montag, um bombeiro que, seguindo a profissão de seu pai e de seu avô, tem certeza de que seu trabalho de queimar livros e as casas que os abrigam, bem como perseguir as pessoas que os detêm, é a coisa certa a fazer. Ele lembra-se particularmente de uma ocasião de sua infância, quando faltou luz e sua mãe acendeu uma vela: no escuro, a vela proporcionou uma luz estranha, mas na qual Montag se sentiu seguro e confortável. Entretanto, após o seu “despertar”, ao presenciar cenas dantescas, o personagem se redime e passa a integrar o grupo de pessoas rebeldes que resistiam com seus livros.
Bradbury encerra a história com tom otimista, dizendo que a sociedade que Montag conheceu foi quase totalmente dizimada e uma nova estaria nascendo de suas cinzas, com um destino ainda desconhecido. Nesse novo mundo, as pessoas que liam livros de forma outrora oculta começam a revelar-se, explicando a todos de onde vieram e de que forma o conhecimento que detêm poderá transformar a vida de todos de forma positiva.
Mas, infelizmente, como o mundo real não é um livro ou filme de ficção científica, nem uma distopia, que invariavelmente acabam com um final feliz, a “queima de livros” atual não parece caminhar para isso, já que o que está sendo queimado é a própria capacidade de pensamento humano, onde as pessoas, como na história de Bradbury, se renderam à tecnologia confortável das redes sociais, televisão, etc. Para os “bombeiros” modernos ficou muito mais fácil e eficiente apagar arquivos digitais e colocar atrás das grades o pensador.
Será que, dentro desse panorama de queima de mentes e ideias, existirão “Pessoas-livro”? Haverá um Samizdat? Talvez tenhamos mesmo que abandonar as redes sociais, os computadores e outras formas tecnológicas, e assim sairmos da arapuca onde colocam todos os ratos-humanos na mesma toca, para assim os exterminar mais facilmente.
Barata Cichetto, 07/07/2024
Pedi ao ChatGPT um resumo sobre o livro e o filme, e o resultado foi o que segue.
Este é o número 8 de uma série de textos sobre Censura, no Brasil e no mundo. Alguns escritos por mim, alguns serão apenas listas, outros tantos retirados de outros sites com os devidos créditos, e alguns até elaborados com ajuda de Inteligência Artificial.
Publicado em: 07/07/2024


Do Livro:
Samizdat: Arquivos de Censura
Barata Cichetto
Gênero: Não Ficção
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 244
Tamanho: 16 × 23 × 1,50 cm
Peso: 0,400
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
Os Livros “Perigosos Demais” Para Serem Lidos (Repost Samizdat)
Barata Cichetto
Esta publicação foi feita originalmente em 30/06/2024, antes de ...
Samizdat — Frases e Citações Sobre Censura
— Barata Cichetto, filósofo de pés ...
Samizdat 01 – Reflexões Sobre a Censura: Passado, Presente e Desafios Contemporâneos
A Censura está para a arte, assim como o linchamento para a Justiça.
— Henry Louis Gates Jr ...
Samizdat 02 – O Que é Censura?
ChatGPT
A censura é sempre um instrumento político, certamente não é um instrumento intelectual. O ...
Samizdat 03 – A Persistente Sombra da Censura no Brasil: Da Monarquia à Pandemia
Agência Senado
O pouco de democracia que nós temos está sendo destruída. A gente nunca viveu em um ...
Samizdat 04 – O Mais Longo Período Sem Censura no Brasil: O Segundo Império
Aventuras na História
Imprensa se combate com imprensa.
— D. Pedro II Ouça o Conteúdo Conforme ...
Samizdat 05 – A História da Censura no Brasil
ChatGPT
No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela ...
Samizdat 06 – Queima de Livros
ChatGPT
Censura nunca acaba para aqueles que vivenciaram a experiência. É uma marca no imaginário ...
ChatGPT
Toda censura existe para impedir que se questionem os conceitos e as instituições do ...
Samizdat 09 – É Mesmo Proibido Proibir?
Historiativa Net
A humanidade censura a injustiça temendo que eles podem ser vítimas do mesmo, ...
Samizdat 13 — (Publicação Pulada Propositalmente)
"Samizdat: Arquivos de Censura". O que seria a publicação de número 13 foi pulada propositalmente. Como ...
ChatGPT
Autocensurar-se é uma espécie de luxo. Quando dirigimos censuras a nós mesmos, ficamos com ...
ChatGPT
A liberdade de expressão é irmã siamesa da liberdade publicitária. A censura sobre uma ...
Samizdat 18 — Sabe o Que é Complexo Industrial da Censura?
The Westminster Declaration
Censuram quem se mantém calado; censuram quem fala muito; censuram quem fala ...







Usar a imaginação nunca é demais. Se uma escola incentivasse o hábito da leitura entre os alunos, e esse livro fosse indicado, creio que ao menos alguns dos leitores não seriam cooptados por professores doutrinadores.
Infelizmente, ao que parece, a imensa maioria dos professores, que querem agora ser chamados “educadores”, por arrogância, prepotência a fim de retirar autoridade de pais, é composta de esquerdistas cooptados pelo estabilisment. Recentemente tivemos um abandono de barco no site por conta disso: um professor que era anti-esquerda, com medo de retaliações, processos e perda de emprego. Ou seja: quem não foi devidamente gramiscizado tem medo. E… Assim eles vão vencendo.