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Samizdat 10 – Da Prensa de Gutenberg à Censura Moderna: A História Revelada dos Livros Proibidos

A censura é o imposto da inveja sobre o mérito.
— Laurence Sterne 1713–1768

A Nova Inquisição: A Guerra Contra as Almas nos Tempos da Censura Digital


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A história da humanidade é marcada por um paradoxo perverso: a evolução do conhecimento coexistindo com a brutalidade da censura. Desde que Johannes Gutenberg revolucionou o mundo com a invenção dos tipos móveis por volta de 1440, permitindo a impressão em larga escala de livros e jornais, a censura tornou-se uma sombra constante. Antes disso, os livros eram copiados à mão por monges, reservados a uma elite restrita. Com a democratização da palavra escrita, surgiu um novo inimigo dos poderosos: o pensamento livre, disseminado através dos livros.

Hoje, em 2024, vivemos um cenário em que a censura ganhou novas formas. As redes sociais, tão odiadas e combatidas por alguns, são apenas a ponta do iceberg. O cerne da questão reside nos livros, aqueles portadores silenciosos das almas humanas, encapsulando ideias e pensamentos que podem revolucionar o mundo ou, para o desespero de muitos, desestabilizar o status quo.

Imagine um mundo sem livros. Imagine um mundo onde cada página queima e com ela, a alma de seu autor, suas ideias, seus pensamentos. É uma metáfora potente, mas também uma realidade amarga. Quando queimamos livros, não estamos apenas destruindo papel e tinta; estamos aniquilando a essência humana, a capacidade de sonhar, questionar e evoluir.

A história está repleta de exemplos dessa barbárie. “As Aventuras de Telêmaco”, de François Fénelon, publicado em 1699, foi alvo de censura por seu conteúdo político e social. A obra, uma crítica velada ao regime francês, foi perseguida por aqueles que temiam o poder subversivo das palavras. Mais emblemática ainda é a “Biblia Sacra Vulgata”, a tradução da Bíblia para o latim por São Jerônimo, que enfrentou censura ao longo dos séculos, em contextos onde a interpretação das escrituras era rigidamente controlada pela Igreja.

A Bíblia, o livro sagrado dos cristãos, paradoxalmente, é o livro mais censurado da história. Versões foram proibidas, queimadas e suprimidas em diferentes épocas e lugares. Disputas teológicas, políticas e sociais transformaram o livro sagrado em um alvo constante. Outras religiões também sofreram com a censura de seus textos sagrados. O Alcorão, livro sagrado do Islã, foi censurado em diversas ocasiões, especialmente em regimes que tentaram controlar a prática religiosa muçulmana. No contexto do hinduísmo, textos como o Bhagavad Gita também enfrentaram censura, particularmente durante períodos de dominação colonial britânica na Índia, onde as autoridades temiam a influência revolucionária das escrituras hindus.

No Brasil, “O Parnaso Obsequioso”, publicado anonimamente em 1705, foi o primeiro livro censurado por seu conteúdo erótico, satírico e burlesco. A moralidade da época não podia suportar tamanha liberdade.

Esses exemplos históricos ecoam no presente. Em um mundo hiperconectado, a censura tomou novas formas, mas a essência permanece a mesma: o medo do pensamento livre. Governos autoritários, grupos religiosos extremistas e até corporações poderosas tentam controlar a narrativa, suprimir ideias divergentes e moldar a percepção pública. Livros são banidos, autores são silenciados e ideias são apagadas. A queima de livros em praça pública pode ter se tornado menos comum, mas a censura digital é sua sucessora direta, talvez ainda mais insidiosa.

Em 2024, vemos um ressurgimento inquietante desse controle. Leis de “proteção da moralidade”, “segurança nacional” e “combate à desinformação” são frequentemente utilizadas como pretexto para silenciar vozes dissidentes. Bibliotecas digitais são invadidas, livros são removidos de catálogos e autores são perseguidos por suas ideias. A queima das almas continua, agora em bits e bytes.

Quando Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz aos idiotas, ele ecoou um sentimento que transcende os tempos. A democratização do conhecimento, seja através de livros ou da internet, sempre incomodou os poderosos. A diferença é que hoje, a censura é mais sofisticada. Algoritmos filtram o que podemos ver, e a manipulação da informação é uma arma poderosa nas mãos daqueles que temem a liberdade de pensamento.

Então, o que fazemos? Nos rendemos a essa nova forma de censura ou lutamos pela preservação das almas contidas nos livros? A resposta está em cada um de nós. Precisamos ser vigilantes, críticos e ativos. Precisamos ler, compartilhar e proteger essas obras que carregam o peso das ideias humanas.

Os livros são mais que simples objetos. São fragmentos da nossa essência, pedaços das nossas almas. Queimá-los, seja fisicamente ou através da censura moderna, é um ato de violência contra a humanidade. Em 2024, a batalha pela liberdade de pensamento continua, e cabe a nós garantir que as chamas da censura não consumam as vozes que desafiam, questionam e inspiram. Porque, afinal, são os livros que nos mantêm humanos. São eles que nos lembram que, em meio à escuridão, sempre haverá uma luz.

09/07/2024

A seguir uma matéria interessante, que faz um resumo da Censura de livros mundo e tempos à fora, publicada no site “Quatro Cinco Um”, e uma listagem de livros Censurados no Brasil, feita pela IA do ChatGPT

Arte Por Leonardo AI

Um Recorte da História de Livros Perigosos

Redação Quatro Cinco Um | 24/02/2023 | Edição #67

Cronologia de violações à liberdade de expressão e censura de títulos no Brasil e no mundo

Desde que uma parte considerável da população mundial passou a ser alfabetizada e ter acesso à leitura, detentores de poder identificam a força das palavras e lançam tentativas de suprimir a liberdade de expressão e o acesso a livros e ideias. Por anos, a Bíblia não pôde ser publicada em outra língua que não o latim, para evitar que os leigos fizessem suas próprias interpretações do texto religioso. Ao longo do século passado, diversas perseguições estavam relacionadas ao conteúdo religioso ou ao posicionamento político das obras. Infelizmente, essa mentalidade persecutória não ficou no passado — desde julho de 2021, cerca de 1.650 títulos foram banidos em alguma instância pública nos Estados Unidos, atitude que repercute também no Brasil, principalmente em relação a obras que abordam temas como racismo, sexo, sexualidade e gênero.

1637 – 1º Livro Banido nos EUA

The New English Canaan“, do advogado inglês Thomas Morton, é considerado o primeiro livro a ser explicitamente banido na história dos Estados Unidos. A obra traz críticas severas aos costumes puritanos e aos colonizadores da América do Norte e é considerada pelo governo um ataque aos bons costumes e desafiador às autoridades vigentes, além de herético. Um exemplar da primeira edição foi leiloado pela Christie’s por US$ 60 mil em 2019.

1922 – Ulysses Proibido

A obra-prima de James Joyce, Ulysses, tem a sua publicação e venda proibidas nos Estados Unidos. Segundo os censores, o romance tinha teor obsceno, além de conter pornografia e blasfêmia. Somente em 1933, por decisão do juiz John M. Woolsey, a proibição foi revogada. Na decisão, o juiz afirma que embora descreva relações sexuais, mesmo que desagradáveis, a literatura séria deve ter a permissão de expressá-las.

1937 – Jorge Amado na Fogueira

Em Salvador, Bahia, as autoridades do Estado Novo, ditadura comandada por Getúlio Vargas, queimam em uma fogueira 1,8 mil livros supostamente simpatizantes do comunismo. A maioria era assinada por Jorge Amado, incluindo 808 exemplares de seu recém-lançado Capitães da Areia.

1953 – Fahrenheit 451

Publicado em outubro de 1953, no auge da campanha de caça aos comunistas liderada pelo senador Joseph McCarthy, o romance de Ray Bradbury é um retrato distópico da sociedade norte-americana, no qual o pensamento crítico é reprimido e os livros são proibidos e queimados. O título é uma referência à temperatura de combustão do papel — 451º Fahrenheit (ou 233º Celsius) — e inspirou o nome da revista dos livros.

1968 – Ditadura Militar

É instaurado no Brasil o AI-5. Durante a vigência do Ato Institucional, são censurados no país cerca de quinhentos filmes, 450 peças de teatro, duzentos livros, cem revistas e quinhentas letras de música. No ano da criação do Ato, uma bomba explode contra o portão da editora Civilização Brasileira, no Rio de Janeiro. Os autores do atentado são simpatizantes da Aliança Anticomunista Brasileira, segundo panfletos encontrados no local. A editora teve dezenas de livros apreendidos pela polícia do Rio de Janeiro.

1970-76 – Censura no Brasil

1970 –  É aprovado o decreto-lei que permite a censura prévia no país.
1972 – O jornal O Estado de S. Paulo passa a ser censurado previamente por uma equipe instalada na redação.
1974 – Rasga coração, última peça escrita por Oduvaldo Vianna Filho, é censurada.
1976 – O romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, considerado atentatório à moral e aos bons costumes, é proibido de circular no Brasil. O jornal Opinião, que teve 221 dos seus 230 números feitos sob censura prévia, sofre um atentado a bomba.

1982 – Resistência às Proibições

A Semana dos Livros Proibidos é criada nos Estados Unidos. O evento surge como reação a um aumento repentino de ameaças à liberdade de expressão em escolas, livrarias e bibliotecas. Durante a Semana, até hoje realizada no mês de setembro, o Departamento de Liberdade Intelectual da Associação Americana de Bibliotecas apresenta listas de livros ameaçados compiladas a partir de reportagens e de denúncias de professores e bibliotecários de todas as regiões do país.

1986 – Um Nobel em Chamas

Durante a ditadura de Pinochet, no Chile, 15 mil exemplares do livro A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, de Gabriel García Márquez, são queimados após serem confiscados no porto de Valparaíso. Os livros apreendidos deveriam ser entregues à editora chilena que publicava as obras de García Márquez, vencedor do Nobel de Literatura em 1982. A reportagem literária conta as complicações do cineasta Miguel Littín, que estava exilado desde o golpe de 1973.

1988-93 – Versos Satânicos

1988 O romance de Salman Rushdie é publicado.
1989 O aiatolá Ruhollah Khomeini emite um edito religioso recompensando quem matasse o escritor e seus editores por cometerem blasfêmia. Rushdie sofre tentativa de homicídio em Londres.
1991 O tradutor italiano de Versos satânicos, Ettore Capriolo, é atacado em sua casa em Milão. O tradutor japonês Hitoshi Igarashi é esfaqueado e morto na Universidade de Tsukuba, onde lecionava.
1993 O editor norueguês William Nygaard é baleado ao sair de sua casa, em Oslo.

2019 – Beijo Gay na Bienal

Na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, então prefeito da cidade, manda fiscais da prefeitura recolherem a HQ Vingadores: a cruzada das crianças, que traz na capa dois homens se beijando. O prefeito anuncia que censuraria o livro, mas o STF derruba a medida que autorizava a prefeitura carioca a censurar obras no evento.

2021 – Estados Censores

Autoridades de 26 estados norte-americanos lançam ações para banir livros em escolas e bibliotecas públicas. Desde então, cerca de 1.650 títulos foram censurados. De acordo com a ong de defesa à liberdade de expressão Pen America, proibições atingem principalmente livros que abordam identidade racial e de gênero, sexualidade, temática LGBTQIA+, justiça social, racismo, violência e suicídio. Defensores dos vetos alegam que os banimentos protegem as crianças.

2022 – Ano Desafiador

Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie, é banido de salas de aula em Hudsonville, Michigan. A HQ Maus, de Art Spiegelman, sofre proibições no Tennessee. Gender Queer, graphic novel de Maia Kobabe em que ela conta se descobrir não binárie e não bissexual, torna-se o livro mais banido dos Estados Unidos. Em agosto, Salman Rushdie é esfaqueado no palco de um festival literário em Chautauqua, Nova York, prestes a falar, justamente, sobre liberdade de expressão.

Arte do Site: Que Bicho Te Mordeu

Obras Literárias Censuradas no Brasil
— Chat GPT

Período Colonial e Imperial

• O Uraguai – Basílio da Gama (1769): Censurada por críticas à Companhia de Jesus.
• Primeira República (1889-1930)
• O Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto (1915): Enfrentou resistência por suas críticas sociais e políticas.

Era Vargas (1930-1945)

• Capitães da Areia – Jorge Amado (1937): Censurada por suas descrições realistas da vida de crianças de rua.

Ditadura Militar (1964-1985)

• O Que É Isso, Companheiro? – Fernando Gabeira (1979): Censurada por relatar a luta armada contra o regime militar.
• Zero – Ignácio de Loyola Brandão (1975): Censurada por críticas ao regime militar e por seu conteúdo considerado subversivo.
• Roda Viva – Chico Buarque (1968): Censurada tanto a peça de teatro quanto a publicação, por críticas ao regime.
• Feliz Ano Novo – Rubem Fonseca (1975): Censurada por seu conteúdo violento e realista.
• O Caos – Carlos Heitor Cony (1965): Censurada por suas críticas políticas.
• Memórias do Cárcere – Graciliano Ramos (1953): Embora escrito antes da ditadura, foi alvo de censura pela descrição da vida prisional durante o Estado Novo.
• Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez (1967): Embora não fosse uma obra brasileira, foi censurada no Brasil por ser considerada subversiva.
• As Meninas – Lygia Fagundes Telles (1973): Censurada por abordar temas políticos e sociais sensíveis durante a ditadura.
• A Moreninha – Joaquim Manuel de Macedo (1844): Relançada durante a ditadura e censurada por insinuações políticas nas novas edições.
• Mar Morto – Jorge Amado (1936): A censura perdurou durante a ditadura militar por seu conteúdo considerado subversivo.

Redemocratização e Período Contemporâneo (1985-Presente)

• Cidade de Deus – Paulo Lins (1997): Enfrentou resistência e tentativas de censura por descrever a violência nas favelas.
• O Doente Molière – Rubem Fonseca (1994): Tentativas de censura por conteúdo considerado violento e impróprio.
• Chatô: O Rei do Brasil – Fernando Morais (1994): Temporariamente censurada devido a processos judiciais por familiares de personagens retratados no livro.
• Roberto Carlos em Detalhes – Paulo César de Araújo (2006): Censurada após uma decisão judicial favorável ao cantor Roberto Carlos, alegando invasão de privacidade.
• Aparelho Sexual e Cia – Hélène Bruller e Zep (2007): Recolhido das escolas públicas em 2011 pelo MEC após críticas de grupos conservadores.
• Minha Luta – Adolf Hitler (1925): Recolhido em 2019 devido à sua natureza ideológica.
• Livros LGBTQ+ na Bienal do Livro do Rio de Janeiro (2019): Tentativa de recolhimento pela prefeitura do Rio de Janeiro, barrada pelo STF.
• O Meu Menino Vadio – Luiz Fernando Vianna (2018): Recolhido das escolas públicas por apresentar críticas à gestão educacional e à inclusão de alunos com deficiência.
• Vamos Comprar um Poeta – Afonso Cruz (2016): Tentativa de censura em escolas do Rio de Janeiro, alegando que a obra criticava o consumismo.
• Revista Crusoé (2019): Alvo de censura judicial após reportagem envolvendo o ministro do STF Dias Toffoli, posteriormente revertida.
• Livros escolares em Rondônia (2020): Tentativa de banimento de 42 obras clássicas da literatura de escolas públicas, revertida após protestos.

Leia Também:
Os Que Derrotaram a Censura“:

Este é o número 10 de uma série de textos sobre Censura, no Brasil e no mundo. Alguns escritos por mim, alguns serão apenas listas, outros tantos retirados de outros sites com os devidos créditos, e alguns até elaborados com ajuda de Inteligência Artificial.

Publicado em: 09/07/2024

Do Livro:
Samizdat: Arquivos de Censura
Barata Cichetto
Gênero: Não Ficção
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 244
Tamanho: 16 × 23 × 1,50 cm
Peso: 0,400

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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2 Comentários
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genecysouza@yahoo.com.br
09/07/2024 22:46

Mais um texto dos bons!
Dando uma olhada no site Quatro Cinco Um, no tópico que cita a queima de livros de Jorge Amado em 1937, cabe observar que o escritor era um entusiasta do regime soviético, que não apenas censurava, mas perseguia e prendia escritores considerados incômodos ao regime comunista. Então, a incineração criminosa de seus livros acabavam denunciando a hipocrisia de JA.

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  [email protected]
09/07/2024 23:14

Sim, que Jorge Amado era um comunista ferrenho é de conhecimento (quase) público, mas nesse caso, quando o assunto é Censura, deixo de lado as preferências políticas de cada um, o que importa é que tiveram livros censurados.

Conteúdo Protegido.
Plágio é Crime!

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