De Ícone da Liberdade a Defensor do Controle: A Incoerência de Caetano Veloso
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A pergunta ressoa incessantemente: será mesmo que é “proibido proibir”? Em meio ao turbilhão político das eleições presidenciais de 2022, Caetano Veloso, um dos maiores ícones da música brasileira e defensor histórico da liberdade de expressão, nos deixa perplexos com suas decisões políticas. Depois de declarar seu amor por Ciro Gomes e afirmar que “eleger o PT é voltar ao passado”, ele rapidamente mudou de postura, abraçando o slogan “Amor Venceu” e apoiando Lula, um ex-condenado cuja absolvição é alvo de sérios questionamentos.
É intrigante e perturbador observar essa mudança de direção. Caetano, que outrora foi uma voz indomável contra a censura e a repressão, agora apoia um sistema que muitos consideram estar deslizando para uma forma moderna de ditadura. Ao abraçar Lula e a coalizão que o sustenta, ele parece fechar os olhos para uma realidade inquietante: o Brasil de hoje é um cenário onde a liberdade de expressão está sob ataque constante, onde a juristocracia reina e a censura se reinventa sob novas formas.
Vamos relembrar Caetano Veloso em 1968, no III Festival Internacional da Canção. Lá estava ele, desafiando a plateia com “É Proibido Proibir”, sendo vaiado e hostilizado, mas se mantendo firme, acusando a juventude presente de não entender absolutamente nada sobre a luta pela liberdade. Era uma época em que sua postura desafiadora era a encarnação da resistência contra um regime ditatorial que sufocava vozes dissidentes e impunha um silêncio ensurdecedor.
Fast forward para 2024, e o cenário é quase kafkiano. O mesmo Caetano que foi um mártir da liberdade está agora apoiando um governo que se comporta como o protagonista de um romance de Kafka, condenando pessoas sem ao menos permitir que conheçam as acusações contra elas. Vivemos um tempo em que indivíduos são perseguidos por expressarem suas opiniões, onde a censura não vem com fuzis e botas militares, mas com toga e caneta.
O fenômeno da juristocracia é alarmante. Juízes e tribunais agem como se fossem a última palavra em todas as questões, muitas vezes ignorando os processos democráticos e os direitos fundamentais. As decisões são tomadas em gabinetes fechados, longe do escrutínio público, e quem se atreve a desafiar esse poder é rapidamente silenciado. Caetano, que sofreu na pele a brutalidade da censura e da repressão, agora apoia um sistema que faz exatamente isso, mas de forma mais sutil e talvez mais perigosa.
É inevitável questionar: o que aconteceu com aquele jovem que desafiou a ditadura militar com sua música e sua postura? O que aconteceu com aquele artista que foi exilado, que viu seus amigos serem presos e torturados, que lutou contra um regime que calava vozes dissidentes? Hoje, ele parece apoiar um sistema que age em favor de ditaduras socio-comunistas, que utiliza a censura e a repressão para manter o controle.
Essa nova forma de ditadura é insidiosa. Ela não usa tanques nas ruas, mas algoritmos nas redes sociais. Não prende opositores em calabouços escuros, mas silencia vozes dissidentes com processos judiciais intermináveis. E o mais perturbador é ver Caetano, um ícone da liberdade, apoiando esse sistema. É como se ele estivesse traindo seus próprios princípios, esquecendo-se das lições dolorosas do passado.
O apoio de Caetano a Lula e ao atual governo é visto por muitos como uma concessão pragmática, uma tentativa de impedir a ascensão de Bolsonaro, cuja retórica e políticas são igualmente polarizadoras. No entanto, isso não pode justificar a defesa de um sistema que reprime a liberdade de expressão e age de forma autoritária. A defesa da democracia não pode ser seletiva; ela deve ser universal e intransigente.
Ao apoiar esse governo, Caetano parece estar dizendo que a liberdade de expressão é importante apenas quando convém. Ele parece esquecer que a verdadeira liberdade inclui a possibilidade de discordar, de criticar, de falar contra o poder estabelecido, seja ele qual for. Apoiar um sistema que persegue aqueles que ousam pensar diferente é trair tudo o que ele defendeu ao longo de sua carreira.
É triste ver um ícone da resistência e da liberdade de expressão se alinhar com um governo que atua contra esses mesmos princípios. Caetano, que outrora foi uma luz na escuridão da ditadura, agora parece ser um aliado daqueles que querem impor um novo tipo de silêncio. A pergunta permanece: será mesmo que é “proibido proibir”? Para muitos, a resposta é clara: hoje, no Brasil, parece que a liberdade de expressão está mais ameaçada do que nunca, e é perturbador ver Caetano Veloso do lado daqueles que querem calar as vozes dissidentes.
É… Parece mesmo que aquela então juventude, onde se inclui o então jovem Caetano, foi mesmo quem tomou – ou apoiou – o poder, pois agora quem gritava “É proibido proibir”, concorda e apoia a perseguição a quaisquer um que diga… É proibido proibir.
Escrito e Publicado em: 05/07/2024
A seguir, alguns textos sobre o “incidente” de 1968″, recolhidos em sites, bem como a letra da música e o discurso completo durante o Festival.
É Proibido Proibir
Caetano Veloso
A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
Estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta
Há o porteiro, sim
E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo
É! Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim
E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo
É! Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
Caí no areal na hora adversa que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa em sonhos
Que são Deus
Que importa o areal, a morte, a desventura, se com Deus
Me guardei
É o que me sonhei, que eterno dura
É esse que regressarei
Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estátuas, as estantes
As vidraças, louças, livros, sim
E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
Rebeldia Poética de Caetano Veloso em ‘É Proibido Proibir’
Letras.Mus.Br
A música ‘É Proibido Proibir’, composta e interpretada por Caetano Veloso, é um marco do movimento tropicalista e um hino de contestação à repressão vivida durante a ditadura militar no Brasil. A letra é um manifesto contra a censura e a limitação da liberdade de expressão, elementos fortemente presentes no contexto político da época em que foi lançada, no final dos anos 60.
A expressão que dá título à canção, ‘É proibido proibir’, é uma clara referência ao espírito de contracultura e liberdade que permeava os movimentos jovens daquele período, inspirada também pelos protestos de maio de 1968 na França. Caetano utiliza imagens como ‘a mãe da virgem diz que não’ e ‘o anúncio da televisão’ para criticar a moral conservadora e a manipulação midiática. A repetição enfática do ‘não ao não’ e do ‘é proibido proibir’ serve como um grito de resistência e um chamado à quebra de paradigmas.
A canção também traz uma dimensão poética e existencial, onde Caetano reflete sobre a vida, a morte e a eternidade, elementos que transcendem a política e tocam no espiritual e no filosófico. A música se torna um convite à reflexão sobre a existência e a liberdade individual, indo além do contexto histórico e alcançando uma universalidade em seu apelo à liberdade e à expressão autêntica do ser.
Discurso de Caetano Veloso Durante o Festival da Canção de 1968
Site Tropicalia
“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa. Eu hoje vim dizer aqui, que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o senhor Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê‑la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Não foi ninguém, foi Gilberto Gil e fui eu! Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha me comprometido a dar esse viva aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira. O Maranhão apresentou, este ano, uma música com arranjo de charleston. Sabem o que foi? Foi a Gabriela do ano passado, que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar por ser americana. Mas eu e Gil já abrimos o caminho. O que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso! Eu quero dizer ao júri: me desclassifique. Eu não tenho nada a ver com isso. Nada a ver com isso. Gilberto Gil. Gilberto Gil está comigo, para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com tudo isso de uma vez. Nós só entramos no festival pra isso. Não é Gil? Não fingimos. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês? Se vocês forem… se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com o Gil! junto com ele, tá entendendo? E quanto a vocês… O júri é muito simpático, mas é incompetente. Deus está solto! Fora do tom, sem melodia. Como é júri? Não acertaram? Qualificaram a melodia de Gilberto Gil? Ficaram por fora. Gil fundiu a cuca de vocês, hein? É assim que eu quero ver.
Chega!”
“É Proibido Proibir”, os Festivais de Música Durante a Ditadura Militar
História Ativa
O inicio da Ditadura Militar Brasileira foi marcado, no plano cultural, pelo sucesso dos grandes Festivais de Música. A televisão se consagrava como principal meio de comunicação, levando para as telas os jovens músicos brasileiros, que eram a grande sensação do momento. A Ditadura Militar Brasileira foi instalada em 1964, a partir daí os brasileiros passaram, progressivamente, a perder seus direitos e o mais importante, sua liberdade de expressão. Muitos utilizaram os Festivais para protestos, como Geraldo Vandré e sua célebre música “Pra não dizer que não falei das flores”, assim como Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, entre outros. Mas esse post é dedicado a um episódio muito marcante, ocorrido no Festival Internacional da Canção, de 1968. Inspirado nos escritos dos muros de Paris, que em Maio de 1968, foi sacudida por grandes manifestações de jovens em busca de maiores liberdades e um menor conservadorismo na política e na sociedade francesa, Caetano Veloso apresentou, acompanhado dos Mutantes, a música “É proibido proibir”. Um protesto claro e direto, não só aos militares e à ditadura, mas também ao conservadorismo da sociedade brasileira.
Os jovens saíram as ruas em Maio de 1968, para demonstrarem toda sua insatisfação com o conservadorismo na sociedade e na política. Duras críticas eram realizadas ao governo Charles De Gaulle. Slogans como ” É proibido proibir”; “A Imaginação no Poder”; “Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade de meus desejos”; “Quando penso em revolução quero fazer amor”; “Somos realistas: queiramos o impossível”; “As ruas são do Povo” Esses slogans se tornaram comuns no vocabulário jovem.
A apresentação da música não poderia ter sido pior. O público presente não aceitou a proposta estética, tipicamente tropicalista, com a poluição sonora, fruída, trazendo uma proposta de criação de uma paisagem sonora, não muito agradável. Mas em 1968, quem estava procurando ser agradável, o importante era se posicionar, ser jovem e mostrar a insatisfação com o sistema político vigente. Uma chuva de objetos atingiram o palco, as vaias eram ensurdecedoras e Caetano não deixou barato. O artista berrou um pesado discurso, que refletia todo o sentimento daquele momento, toda a necessidade de promover uma reavaliação tanto no cenário político quanto no comportamento dos jovens. A estética musical tinha que ser quebrada, eram os sons da repressão, uma nova batalha que se estabelecia, não adiantava protestar e continuar o mesmo, eram ares de mudança que estavam sendo propostos pelos tropicalistas. “Vocês estão por fora. Vocês não dão para entender. Mas que juventude é essa? Vocês são iguais sabem a quem? Sabem a quem? Aqueles que foram na Roda Viva (peça de teatro) e espancaram os atores. Não diferem nada dele”.
Este é o número 9 de uma série de textos sobre Censura, no Brasil e no mundo. Alguns escritos por mim, alguns serão apenas listas, outros tantos retirados de outros sites com os devidos créditos, e alguns até elaborados com ajuda de Inteligência Artificial.
Publicado em: 09/07/2024


Do Livro:
Samizdat: Arquivos de Censura
Barata Cichetto
Gênero: Não Ficção
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 244
Tamanho: 16 × 23 × 1,50 cm
Peso: 0,400
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
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Censuram quem se mantém calado; censuram quem fala muito; censuram quem fala ...







Guardadas as devidas proporções, Caetano Veloso — dada sua grande importância no contexto cultural e político brasileiro –, é algo parecido com um Roger Waters em nível mundial. Sim. Dois cérebros privilegiados que produziram obras imorredouras, retratos perfeitos de um mundo em constante mutação, que não apenas desnudaram em praça público tudo aquilo de negativo que está reunido naquela coisa chamada O Sistema, esse monstro multitentacular que foi tenazmente combatido por ambos os gênios não faz muito tempo
Para quem viu Caetano colocar sua cabeça dentro de uma camisa improvisada como máscara de um arruaceiro black block, para, em seguida, lamber o saco de um presidente ex-presidiário; e Roger Waters a paparicar ditadores e, o que é pior, agir como um ativista anti-judaico, chego à triste conclusão que, salvo honrosas exceções, o rock errou. E feio.
O baiano é um bajulador dos podres poderes, e o inglês um porco construtor de muros.
Eu não poderia ter sintetizado melhor as duas figuras. Bravo! Mas, meu texto serve (como creio ter ficado claro), que não concordo em nada com as atitudes políticas no caso do Sr CV, e o evento de Proibido Proibir, é apenas uma ilustração de como certos artistas se preocupam com a Censura apenas quando lhes pisam nos calos. Ou nos bagos. Ademais, reina no reino a hipocrisia, a militância por interesse e o resto é conversa para boi dormir… E vaca mamar, se é que me entende (claro que sim).
Resumindo CV: o Superbacana tropicalista daqueles tempos é hoje um tropicanalha.
Sempre foi. Enganou – e ainda engana muita gente.