Quase tão antiga quanto a censura, é a capacidade humana de resistir a ela.
— Barata Cichetto
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Em um panorama midiático cada vez mais polarizado e tensionado, o documentário “Gagged in Brazil“, dirigido por Daniel Florêncio, se destaca como uma obra crítica e necessária. Lançado em 2008, o filme aborda a censura e a liberdade de imprensa no Brasil, com foco particular no estado de Minas Gerais durante o governo de Aécio Neves.
Daniel Florêncio, cineasta brasileiro radicado em Londres, utiliza seu documentário para lançar um olhar penetrante sobre os desafios enfrentados pelos jornalistas mineiros que tentavam reportar sobre a administração estadual de Neves. Formado em Rádio e Televisão pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Florêncio traz uma perspectiva interna e bem-informada sobre a situação, algo que se reflete profundamente na narrativa do filme.
Ao assistir “Gagged in Brazil“, fica claro que o documentário é mais do que uma simples exposição dos fatos; é um testemunho da luta pela verdade em um ambiente hostil. Florêncio se aprofunda em casos de censura direta e indireta, mostrando como jornalistas foram silenciados e meios de comunicação cooptados para alinhar-se com interesses políticos. As entrevistas com jornalistas, editores e especialistas compõem um panorama sombrio, mas essencial, do estado da liberdade de imprensa no Brasil naquele período. É impossível não sentir um nó na garganta ao ouvir os relatos de profissionais dedicados que enfrentaram ameaças e pressões constantes apenas por fazerem seu trabalho.
Apesar de focar em eventos de uma década atrás, “Gagged in Brazil” ressoa fortemente no contexto atual, onde a liberdade de imprensa continua sob ameaça em várias partes do mundo. A obra de Florêncio é um lembrete potente da importância de uma imprensa livre e independente para a democracia e os direitos humanos. Em tempos onde a desinformação se espalha rapidamente e onde o jornalismo é frequentemente atacado, este documentário serve como um grito de alerta e um apelo à resistência.
Desde seu lançamento, “Gagged in Brazil” tem sido elogiado por críticos e defensores da liberdade de imprensa. O documentário tem sido exibido em vários festivais internacionais e continua a ser um recurso valioso para estudos de jornalismo e direitos humanos. A abordagem cuidadosa e o rigor investigativo de Florêncio foram destacados como pontos altos da obra. É inspirador ver como uma produção relativamente modesta conseguiu alcançar tanto impacto, gerando discussões e reflexões importantes sobre a mídia e a censura.
“Gagged in Brazil” é um documentário essencial para compreender os desafios históricos e contemporâneos enfrentados pela imprensa brasileira. Através da lente de Daniel Florêncio, o público é convidado a refletir sobre a importância da transparência e da verdade jornalística em uma sociedade democrática. Para aqueles interessados em assistir ao documentário, “Gagged in Brazil” está disponível em várias plataformas de streaming e continua a ser uma peça crucial para entender a dinâmica da censura e da liberdade de expressão no Brasil.
Assistir a este documentário é mais do que um ato de consumo de mídia; é um ato de solidariedade e de defesa da liberdade de expressão. É um convite para não nos esquecermos daqueles que arriscam suas vidas e carreiras para trazer a verdade à luz, mesmo quando o preço a pagar é alto.
16/07/2024
Quem é Daniel Florêncio
Daniel Pereira Florêncio é um diretor, roteirista e produtor de cinema brasileiro nascido em Belo Horizonte em 1980, atualmente baseado em Londres. Graduou-se em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais e completou um mestrado em artes e mídia na University of Westminster antes de iniciar uma carreira notável no Reino Unido.
Florêncio se destacou com a edição da série premiada da BBC, The Secret Show, e ganhou reconhecimento internacional com o documentário “Gagged in Brazil” (2008), que abordou a censura à imprensa durante o governo de Aécio Neves em Minas Gerais. Ele também dirigiu o curta-metragem “Awfully Deep” (2010), estrelando Lino Facioli, conhecido por Game of Thrones.
Em colaboração com Maria Nefeli Zygopoulou, Florêncio lançou com sucesso uma campanha de financiamento coletivo para seu primeiro longa-metragem, “Chasing Robert Barker” (2015), premiado no National Film Awards UK. Atualmente, ele continua desenvolvendo novos projetos através de sua produtora, I Made it Films, incluindo o próximo longa-metragem “In Arcadia”.
O Caso dos Vídeos Sobre Aécio Neves Que Estão Sendo Censurados no YouTube
Kiko Nogueira | DCM
A trajetória de “Gagged in Brazil” (“Amordaçados no Brasil”) foi escrita e dirigida por Daniel Florêncio para a Current TV, canal por assinatura e portal da web criado por Al Gore.
Daniel mostra a cumplicidade da mídia com o projeto de poder de Aécio. Uma editora da TV Globo aparece, sem ser identificada, relatando que a emissora esperava que Aécio estivesse “do lado da Globo”.
Uma matéria no Jornal Nacional elogiava o “déficit zero” nas contas públicas do estado. Logo após a “notícia” narrada por Fátima Bernardes, entrava nos comerciais um anúncio do governo de MG repetindo quase ipsis verbis o que a âncora relatara.
“Gagged” foi ao ar na Current TV no Reino Unido e nos EUA em maio de 2008. Uma semana mais tarde, foi postado no YouTube, com legendas, e bombou em pouco tempo.
Quatro meses depois, sairia da Current.com. Florêncio — que mora em Londres há dez anos — escreveu no Observatório da Imprensa que sua editora lhe esclareceu o seguinte: “Os executivos sêniores do canal nos EUA receberam cartas com severas considerações e críticas sérias em relação ao filme. As cartas foram enviadas pelo PSDB de Minas Gerais. O PSDB afirmava que meu filme tinha caráter político-partidário, que não representava a realidade no estado e questionava minha conduta ética”.
Por desejo do diretor de programação David Newman, o gerente de jornalismo Andrew Fitzgerald deu início a uma investigação. “Elaborei dossiês, contatei minhas fontes no Brasil e escancarei meus procedimentos para Andrew Fitzgerald”, diz Daniel. Fitzgerald o avisaria, afinal, que “Gagged in Brazil” estava de volta à Current TV.
No YouTube, porém, o desfecho foi outro. No dia 3 de fevereiro deste ano, Florêncio recebeu um alerta de um desconhecido, querendo saber o que houve com o filme. Quando clicou no link, pumba!: infração de copyright, requisitada por um certo Gabriel Amâncio. Ganha um pão de queijo quem acredita que Gabriel Amâncio é um cidadão de carne, osso, miolos e músculo.
Como no caso de “Liberdade”, outras versões estavam disponíveis. Mas a eliminada contava com quase meio milhão de visitas, além dos links em sites, blogs e nas redes sociais. Na internet, a relevância varia de acordo com o número de links e visitas. O objetivo era fazer com que o documentário se tornasse irrelevante no Google, Bing, Yahoo etc.
O PSDB perpetrou um vídeo-resposta a “Gagged” que explodiu milagrosamente no YouTube. Os comentários, veja só que curioso, eram de países da Ásia, África, Europa. Todos falsos. Daniel explicou a ciência por trás dessa façanha em outro filme curto, que eu posto abaixo. Basicamente, é um spam. Assista enquanto Jorge Scalvini não dá as caras.
Aécio tem processos contra Facebook, Twitter e Google. Quem o representa é o escritório de advocacia Opice Blum, tido como autoridade em direito digital. Segundo um perfil do candidato na Piauí, seu contrato é como pessoa física.
Uma advogada afirmou à revista que as ações contra buscadores fazem referência a “uma mentira que espalharam na rede dizendo que o senador é acusado em ação judicial promovida pelo Ministério Público de ter desviado 4,3 bilhões de reais”.
Já dizia a fabulosa Hannah Arendt: “Somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas, numa variedade de aspectos, sem mudar de identidade, de sorte que os que estão à sua volta sabem que veem o mesmo na mais completa diversidade, pode a realidade do mundo manifestar-se de maneira real e fidedigna”.
Marina Silva citava Hannah Arendt com frequência. Não sei se Aécio Neves tem ideia de quem se trata.
DCM, 4/11/2014
Publicado em: 16/07/2024
Abaixo, o documentário na íntegra, do Canal Daniel Florêncio


Do Livro:
Samizdat: Arquivos de Censura
Barata Cichetto
Gênero: Não Ficção
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 244
Tamanho: 16 × 23 × 1,50 cm
Peso: 0,400
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
Os Livros “Perigosos Demais” Para Serem Lidos (Repost Samizdat)
Barata Cichetto
Esta publicação foi feita originalmente em 30/06/2024, antes de ...
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