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Samizdat 30 — O Silêncio que Nos Envolve: Samizdat e a Nova Censura

É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte; ausência de Censura e consumismo burguês. Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola… — Roberto Campos Economista, diplomata e político matogrossense 1917–2001
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Durante a Ditadura Militar, a censura tentava silenciar vozes dissonantes, mas a resistência emergiu por meio de alternativas clandestinas, como jornais e livros mimeografados. Eu, um adolescente na época, participei ativamente desse movimento, mesmo não alinhado à ideologia esquerdista dominante, publicando meu próprio “jornalzinho” em mimeógrafo.

Eu já não reconheço os tempos em que vivo. Talvez seja o peso dos anos, ou talvez seja apenas a claridade brutal da consciência que me faz perceber o quanto nos tornamos cegos, surdos e mudos por escolha própria. A era do Samizdat, aquele movimento subterrâneo de resistência que floresceu nas entranhas da União Soviética, parece hoje mais uma lenda perdida do que uma realidade vivida. Mas a verdade é que, por mais que tentemos esquecê-lo, ele continua a ecoar nas sombras, como um aviso silencioso para aqueles que se recusam a aprender com a história.

Em algum lugar do passado, escondido nas sombras da história, dois movimentos de resistência silenciosa ecoam com força: o Samizdat, da União Soviética, e a luta pela liberdade de expressão no Brasil durante a Ditadura Militar. Dois momentos distintos, em contextos políticos diferentes, mas unidos por uma verdade simples e terrível: quando o Estado decide controlar a verdade, a resistência se torna não apenas necessária, mas inevitável.

Eu penso, com certa amargura, sobre como chegamos a esse ponto novamente. Vivemos tempos de Censura velada, travestida de moralidade, justiça social ou segurança nacional. A história, como sempre, se repete, não como farsa, mas como tragédia. Estamos cercados por uma nuvem densa de conformismo e autoCensura, onde as palavras precisam ser medidas, os pensamentos controlados, e as opiniões, filtradas por um medo constante de represálias.

Foto: Pequod Rivista

O Samizdat nasceu na União Soviética como um grito de liberdade. Era uma resposta à repressão brutal do regime comunista, que calava qualquer voz dissonante. Escondidos em porões, apartamentos apertados e escritórios clandestinos, os dissidentes datilografavam páginas e páginas de textos proibidos, que depois eram distribuídos de mão em mão, copiadas em papel carbono até que a tinta quase desaparecesse. Esses textos traziam à tona verdades inconvenientes, expondo os crimes do governo, celebrando a cultura que o regime tentava suprimir, e mantendo vivo o espírito de uma nação que, apesar da opressão, recusava-se a morrer.

No Brasil, durante os anos da Ditadura Militar, o cenário era assustadoramente semelhante. A imprensa estava sob constante vigilância, os livros eram proibidos, e qualquer crítica ao governo era rapidamente silenciada. Mas a resistência não se deixou sufocar. Assim como o Samizdat, surgiram formas alternativas de disseminar a verdade: jornais, panfletos e até mesmo livros eram publicados às escondidas, muitas vezes usando gráficas clandestinas ou mesmo mimeógrafos a álcool. Esse material era distribuído de mão em mão, em manifestações, ou enviado por correio. Eram as armas de uma geração que se recusava a aceitar a narrativa imposta pelos generais. A repressão era brutal, e muitos pagaram com a própria vida pelo direito de falar.

Eu, na época do Regime Militar, era um adolescente e fui tomando consciência dos prejuízos humanos que a Censura causava: torturas, prisões indevidas, entre outros horrores. Mesmo não fazendo parte de nenhum movimento organizado, participei ativamente, publicando o que chamávamos de “jornalzinho” — o termo “fanzine” apareceu bem depois — em mimeógrafo. Se hoje meu nome não é lembrado pela chamada “Geração Mimeógrafo”, é justamente por eu não aceitar a hegemonia da ideologia esquerdista predominante entre seus integrantes.

Photo: Tookapic (CC)

Agora, olhando para trás, percebo que as lutas do passado nos prepararam para o que enfrentamos hoje. Mas ao mesmo tempo, sinto um desespero crescente ao ver como a história está se repetindo, e nós, como sociedade, parecemos estar tão mal preparados. As novas formas de Censura são mais sutis, mas não menos perigosas. Elas não vêm com fuzis e torturadores, mas com algoritmos, cancelamentos e uma correção política que se tornou uma nova forma de tirania. A verdade é agora moldada pelo que é socialmente aceitável, e as vozes discordantes são rapidamente silenciadas ou marginalizadas.

A internet, que prometia ser um campo aberto para a liberdade de expressão, tornou-se um terreno minado. As grandes corporações de tecnologia, em conluio com governos e grupos de interesse, decidiram o que pode ou não ser dito, lido, compartilhado. A Censura agora é automatizada, e a resistência, fragmentada e dispersa. E ainda assim, a necessidade de uma nova forma de Samizdat é mais urgente do que nunca.

Nós precisamos de um novo movimento de resistência, que utilize as tecnologias modernas para fazer o que o Samizdat e os dissidentes da Ditadura fizeram em seu tempo: manter a verdade viva, mesmo sob o peso esmagador da Censura. Precisamos de plataformas descentralizadas, onde as vozes que incomodam possam encontrar um espaço seguro para se expressar. Precisamos de redes de comunicação que escapem ao controle das corporações, que possam distribuir informações de maneira anônima e segura. E, acima de tudo, precisamos de coragem. Coragem para enfrentar o novo totalitarismo da era digital, com a mesma determinação que os dissidentes enfrentaram os regimes autoritários do passado.

Foto: Memórias Reveladas

Mas sei que não será fácil. Vivemos em tempos onde a comodidade é mais valorizada do que a liberdade. Onde o medo de ser “cancelado” é maior do que o desejo de dizer a verdade. Onde a maioria prefere se calar, na esperança de não ser notada, de não ser o próximo alvo. E é exatamente isso que o novo autoritarismo quer: que nos calemos, que nos conformemos, que aceitemos a narrativa dominante sem questionar.

Mas há uma lição que podemos tirar tanto do Samizdat quanto da resistência à Ditadura: por mais que tentem, nunca poderão calar todas as vozes. Sempre haverá aqueles que se recusam a aceitar o silêncio imposto. Sempre haverá aqueles que, como os dissidentes do passado, encontrarão maneiras de fazer suas vozes serem ouvidas. E é com esses que precisamos nos aliar, é com esses que precisamos lutar.

Foto: UFMG

O novo Samizdat não será feito de papel carbono e máquinas de escrever, mas de criptografia e redes descentralizadas. Ele não se esconderá em porões, mas em servidores anônimos espalhados pelo mundo. Será a resposta da nossa geração à Censura moderna, e será, como sempre foi, a faísca que mantém viva a chama da liberdade.

Porque, no fim, é disso que se trata: a liberdade de pensar, de falar, de questionar. E enquanto houver aqueles que se recusam a aceitar o silêncio, a luta pela verdade continuará. No Brasil, na Rússia, em qualquer lugar onde a Censura tenta erguer suas garras. Porque a história pode se repetir, mas a resistência também. E ela sempre encontrará um jeito de sobreviver.

Escrito e Publicado em 10/08/2024

Imagem Criada Com Ia (Ideogram)

Samizdat: Reprodução de Literatura Censurada

(Traduzido automaticamente pelo Google, do site Macalester)

A literatura censurada tem uma história importante não apenas por suas implicações políticas, mas também devido à natureza de sua reprodução material ilícita, que pode oferecer muitos insights sobre a existência de objetos de texto dentro de uma sociedade. Os métodos de resistência que permitem que essa literatura seja reproduzida podem frequentemente acabar eclipsando em importância o conteúdo real da obra. Na União Soviética, o samizdat existia como “uma prática clandestina… de circular manuscritos que eram proibidos, não tinham chance de serem publicados em canais normais ou eram politicamente suspeitos” (Lupinin 1347). Esse método de publicação, reproduzido e circulado por meio de “datilografados, cópias mimeografadas ou itens manuscritos”, criou uma cultura de subversão na qual o desafio das ideologias dominantes tornou-se associado a erros tipográficos e scripts de qualidade inferior (Lupinin 1347).

A história da prática específica começou na década de 1940 com Nikolai Glazkov, que começou a usar a palavra “ samsebiaizdat — isto é, autopublicação do trabalho de alguém — na primeira página de suas coleções de poemas datilografados” (Oushakine 194). Nas décadas seguintes, os documentos foram reproduzidos dessa maneira e então circularam com a expectativa de que aqueles que os obtivessem “redigitariam [a literatura] com múltiplas cópias carbono para leitores posteriores” (Downing 356). A ocultação cuidadosa era necessária porque a posse de tal literatura proibida era motivo de prisão; havia “acesso estritamente controlado a máquinas de cópia”, tornando “máquinas de escrever de propriedade privada o meio mais prático para publicação” (Komaromi 599). Como resultado da dependência de máquinas de escrever e reprodução individual, os erros se tornaram parte integrante do processo. O “meio samizdat” tornou-se associado a um manuscrito “miserável” contendo vários “erros e correções, bem como tipo borrado ou pálido” (Komaromi 603). Uma forte associação cultural foi então traçada entre a existência material do texto samizdat e a literatura subversiva, entre erros tipográficos e o “produto inebriante” da prática, sua natureza como “fruto proibido” que transmite conhecimento importante que de alguma forma não se supõe que se saiba (Komaromi 606). Tais erros tornaram-se importantes porque marcaram a “ diferença entre samizdat e publicações oficiais”; a mensagem real “transportada na página samizdat deixou de importar” para aqueles que fetichizaram o objeto porque o valor do texto foi codificado em sua diferença como “forma física” (Komaromi 609). Em alguns casos, de acordo com Komaromi, até mesmo “literatura interessante” seria “descartada” porque apareceu na imprensa oficial (Komaromi 609). A marcação do objeto de texto como subversivo tornou-se mais importante do que a realidade do conteúdo subversivo.

Uma compreensão do samizdat como quase inteiramente baseada em sua natureza como objeto textual levou a várias obras que deliberadamente incluíam erros tipográficos em textos como um método de revelar a importância de sua representação textual. Dmitri Prigov, um proeminente escritor russo e artista conceitual conhecido por unir formas de arte divergentes e sendo brevemente institucionalizado por seu trabalho, empreendeu um projeto de edição do famoso romance de Pushkin, Eugene Onegin, e ao fazê-lo adicionou vários dos elementos textuais comuns do samizdat , incluindo seu “papel de seda translúcido e com orelhas de cachorro, com abundantes erros e sobreposições de tipos” (Komaromi 610). Seu propósito era expor o “elitismo do meio samizdat” ao mostrar até que ponto a forma importava. Seus erros intencionais desafiam a “fetichização do texto” considerada tão essencial à natureza do samizdat , ao mesmo tempo em que o coloca dentro do contexto de textos canônicos da história russa (Komaromi 611).

A prática de samizdat é semelhante ao status da música considerada subversiva dentro da União Soviética. Originalmente começando com o jazz e então eventualmente incluindo o rock ocidental, dissidentes dentro do país teriam que desenvolver métodos de efetivamente reproduzir e circular essa música fora dos canais oficiais. Muitos jovens soviéticos ouviam “audiocassetes de… música rock, copiadas muitas vezes” que eram “amplamente divulgadas e eram conhecidas como magnitizdat ” (Downing 357). Essa circulação ilícita se tornou importante em termos de mudar a lealdade dos jovens contra o regime soviético porque eles não conseguiam ver o ponto da autoridade suprimir coisas como música. O termo se refere especificamente à prática de disseminação e descreve um modo que “abrangeu todas as gravações não oficiais: recitação poética, romances lidos em fita, entrevistas e música” (Daughtry 5). Foi estabelecido pela chegada de “gravadores de rolo acessíveis em lojas soviéticas” e se tornou associado àquele meio específico de fitas cassete dubladas (Daughtry 6). A qualidade em massa da produção permitiu que os cidadãos soviéticos desafiassem a autoridade do regime por meio de experiências culturais compartilhadas. Curiosamente, as autoridades soviéticas se concentraram muito mais nos dissidentes envolvidos na prática de samizdat do que em magnitizdat ; frequentemente em ataques, os cidadãos tinham suas reproduções de literatura ilícita apreendidas enquanto suas fitas cassete estavam intocadas (Daughtry 8). Magnitizdat também era um processo muito mais simples em termos de reprodução e, portanto, era mais difícil para as autoridades isolar seus editores em comparação com os de samizdat (Daughtry 8). A natureza material da reprodução desempenhou um grande papel na relativa subversão dessas práticas. Além disso, como Daughtry escreve, “quase todas as pessoas que estavam ativamente lendo samizdat também estavam ouvindo magnitizdat (Daughtry 9). A última prática representa um método maior e mais popular de reprodução subversiva, com muitas características semelhantes.

A natureza do samizdat é tão complicada porque representa tanto a progressão natural de dissidentes encontrando novas formas de comunicação fora da mídia oficial quanto a fetichização do texto como um objeto que codifica a diferença cultural. Ele se situa na intersecção entre contexto subversivo e representação textual, existindo como um processo simultaneamente enredado dentro da estrutura maior da dissidência soviética e autoconsciente de sua existência como mero artefato. Suas complicações refletem a tensão de criar discursos subversivos na sociedade soviética e a necessidade de um estudo mais aprofundado de tais sistemas.

Sean Ryan, 20 de Novembro de 2009

Do Livro:
Samizdat: Arquivos de Censura
Barata Cichetto
Gênero: Não Ficção
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 244
Tamanho: 16 × 23 × 1,50 cm
Peso: 0,400

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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