Sou velho. Não, não, não. Nada de idoso. Politicamente correto é seu cu. E ancião, então, são dez nãos. Lembra a Congregação Cristã. Que não é do Brasil. Mas, como eu dizia, sou velho. Mas não falo isso com orgulho, porque ficar velho é uma bosta. Parem de ficar glamourizando a velhice. São dores, desamores, horrores que não acabam. Células morrem e daí tudo se acaba, derrete. Como picolé ao sol. A gente vai definhando, encolhendo, como “O Incrível Homem Que Encolheu”. E quando percebe, a gente encolheu tanto que desapareceu. E ficar velho é isso. Encolher até desaparecer. Desde criança sonho com um mundo assim. Como em Benjamin Button: nascer velho e ir voltando, até o útero, esperma, coito, desejo. Do pai, da mãe. Do trisavô. Tatatatatataravo. O nada. Que não é nada. Ou algo tão velho quanto o pai de Deus, ou de qualquer deus de qualquer religião. Odeio espelhos. Sempre odiei, mas agora é pior. Porque mostra minha pele flácida. E minhas rugas. Que mais parecem estradas e rotas de fugas de bandidos degenerados. Exagerados. Desesperados. Ah, pois certo, o relógio bateu a milésima quadragésima hora. E tiquetaqueia mais rápido a cada segundo. O teclado do computador ficou rápido demais. Quero a Valentine de volta! Ah… Valentina… Que mulher! Era bibliotecária e gostava de foder no meio das estantes de livros. São seres vivos, os livros. Dizia ela. Enquanto eu a fodia com força. Queria falar que estou de pau duro agora, mas apenas consigo lembrar em números altura e peso. E também que por causa dela li “Ulisses” inteiro sem entender uma palavra. Por causa da Valentina eu comprei a Valentine. Era vermelha e linda. Olivetti és tu? Ivete és tu? Já sei, seu nome é Canivete, e estás a postos para cortar minha jugular. Tanto melhor que ficar velho. Ao menos mais rápido. Dor eu suporto. Se não suportasse teria morrido aos 27. 44. 60. Acontece que morri antes de nascer. Então? Ficar velho é carma ou maldição. Ou não? Alguém viu a vulva da viúva? Eu vate vovô vi a uva e devorei a viúva. Na chuva. Vou vomitar vísceras, ver tevê e escrever. “Direita volver!” Vou ver.— Agora à Valentina consagro minhas punhetas. Às Valentines minhas escritas. Sou uma máquina de escrever. Escrevo até sem ver. E a todas as putas descritas. Que são belas e malditas. Máquinas de datilografar. E mulheres de espinafrar. Consagro agora meu último ato de onanismo. A quem me ensinou o catecismo. E me provou que o catecismo. É tão perverso quanto o comunismo. Mas me mostrou que atrás da Igreja. Àquele que deseja. Sempre há uma maquina de foder. E que se ninguém poder. Ainda pode. Foder com quem pode. E que sempre há uma viúva. Clamando na chuva. Por quem a possa comer. — E lá vou eu de novo. Falando que nem polvo. E lembrando da Cristina. Da Clementina. E de todas, menos a Valentina, não pude fornicar. Mas , foder é o verbo para quem não soube conjugar. O verbo trepar.
22/03/2024


Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
