Dou-me conta neste momento, em que Yuri Fulone lança uma música sobre a Led Slay, que sou uma porcaria de um velho. Ah, não me venham com churumelas de que ficar velho é legal. Não é. Glamourizar a velhice é tão hipócrita quanto puta louvando a virgindade. Só quem é sabe o que é. Ser. E garanto, que ao menos aos velhos duros e fodidos como eu não é. A gente viveu muitas histórias, sim. Mas não lembra detalhes, nomes, lugares. Todas as manhãs é uma dor diferente. E aí se a gente tenta fazer uma air guitar doem os dedos. Bater cabeça então. Só se for com Dipirona 1G do lado. Dores. Calores. Falta de vontade até de foder. De comer. De qualquer coisa com “er”. Parem com essa merda de ficar falando que ficar velho é bom. Isso é uma merda! É, eu conheci a Led Slay logo depois de nascer, há mais de cinquenta anos. Frequentei a Leds durante muitos anos antes de me cagar. Ops… Casar… Parei. Voltei na virada do século. Fui promotor, webmaster e organizador de eventos lá. Em 2011 a porra fechou. E deixou um monte de saudades, claro. Imagino quantas crianças foram concebidas ali dentro. O fato é que tem muita história a Led Slay. Belchior, Zé Ramalho, Sepultura, Zé do Caixão. Ah… A Led Slay sempre foi isso: paixão. O lugar onde fumei maconha pela primeira vez, lá por 1976. E não gostei. E quando tentei pela segunda vez. Em 2003. E também detestei. Em 2013 não fumei. Nem sei. Mas não existia mais a Led Slay. Jardim Popular, Paganinni, Penha, Belém. Tatuapé. Várias moradas que conheci. E onde dormi. Onde fodi. Até me casei na Led Slay. Tá, eu sei. E hoje lembrei. Daquela menina, tão pequena quanto safada. Com quem casei. Na Led Slay. Parecia a Betty Boop. Só que safada feito a Mia Khalifa. Ela gostava mais de rola do que da mãe. Do pai nem tanto. Uma safada que deixava rodas de melado na cama. E na Led Slay. Ela dizia que eu era velho. Em 2004. E ela tinha vinte e sete. E eu tinha quarenta e seis. E hoje ela tem quarenta e sete. Uma velha segundo o conceito dela. E eu nem sei. Onde anda. Só sei que não. Na Led Slay. Nem a Led Slay está mais na Led Slay. Ela gostava de pinto e de rachas escuras. E eu só gostava dela. Ela era jovem e eu era velho. Para ela. E agora ela é velha para ela. E eu sou velho. Para mim. Simples assim. Ela gozava litros. E chupava aos quilos. E também apagava cigarros na minha perna e mordia meu rosto. Não… Não tenho desgosto. Porque ela fodia como ninguém. E tudo isso… Graças à Led Slay. Agora penso que estou velho. E isso é uma merda. Mas a Led Slay. Tanto quanto Inês. É morta. Minha fatídica. Idílica. Magnífica. Lúdica. E púdica (escrevo do jeito que eu quiser e acentuo do jeito que quiser. Tirei a licença poética num camelô da Celso Garcia, no Tatuapé, número cinco mil setecentos e alguma coisa), ex-esposa, que não descrevo como raposa, nem como galinha, ainda deve estar por aí, em algum lugar, criando os filhos que não lhe dei. Quanta coisa pode suscitar. Uma canção. E me dou conta que não sou tão insignificante quanto pensei. Para a Led Slay. Talvez também para a Lady Slay. E para as estórias da Senhora Não Sei. Lembro-me de tudo, mas a garota com quem casei, cujo nome não é Lady Slay, como achei. Jamais esquecerei. Só pensei agora, que com seus menos de um metro e meio. Ela mudou meu conceito de homem. E não pelo abdômen. Ou pelo que comem. Mas por quem comem. E com seus pés, tamanho trinta e três, que iam sempre no caminho errado. Para mim. E parem de achar que velhice é uma porra de uma dádiva. Porque duvido que cheguem aonde cheguei. Frequentando a Led Slay. Sem dores. E lembrando, como lembrei. Da Lady Slay. Não tenho fotos nem vídeos. Dignos do Xvídeos. Dessa Lady. Então espero que desculpem. Porque realmente não sei. Onde anda Lady Slay. E se alguém souber o endereço. O telefone. Ou o perfil no Facebook. Não precisa me mandar. Apenas diga a ela. Que sempre pensei, na Dama da Lady Slay. E que até hoje ainda bato punheta. Pensando na sua buceta. Dançando na Led Slay.
06/04/2024


Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
