Vômito de Metáforas | Por Dúzia, Por Penca ou por Quilo?

Quero comprar um quilo. Daquilo. Não pensem mal. Não é de sal. Nem de farinha. Daquele de cheirar. É apenas um quilograma. Sem drama. Um quilo certo. De algo que não é vendido no mercado. Nem comercializado. No atacado. No varejo. E pelo que vejo. Nem no marketplace das Casas Bahia. É uma coisa que um dia. Foi chamada de poesia. E que agora. Se ignora. Por covardia. Por falta de cultura. “Para cuspir na estrutura”. E que a essa altura. Do campeonato. Perdido antes de começar. Costura. A textura. De um mundo prestes a acabar. No bar. Bebendo com putas. E deixando as lutas. Para os que ainda sonham em lutar. Enlutar. Ah… Estou de luto. Luto por mim. Luto por tudo. E por tudo aqui que se possa comprar. De preferência à prazo. Para pagar. Depois que o mundo acabar. Seiscentas e sessenta e seis prestações. Quatro estações. E um quilo daquilo. Acaba custando sua vida. Com uma dívida. A nunca terminar. Uma dúzia não é um quilo. Mil gramas. E um telegrama que nunca irá chegar. Porque o carteiro louco. Um tanto porco. Parou no bar. Tomou uma dose de Cynar. E esqueceu de assinar. O Boletim de Ocorrência. Na residência. Do procurador. Que procura uma dor. Para se consolar. Da sua dependência. De um quilo de pó. De poeira. Ou algo que o possa cegar. E não posso negar. Que minha consciência. Sobre a ciência do pó. Da vacina. E da China. Está tão claudicante. Quanto da fumante. De maconha na esquina. Ah… Lembram-se da Tina? Que não era Cristina. Mas Clementina. Mas era cretina. E jogava serpentina. Cheirava cocaína, E tomava xilocaína. Antes de deitar? Pois é. É a mesma. Que agora. Feito lesma. Rasteja aos meus pés. Antes de me chupar. Sou apenas um idoso. Chato feito carrapato. Que gosta de reclamar. Por não ver o mar. Por não amar. Por não chamar. Uma puta banguela. Para trepar. Com ela. Que pinta aquarela. Antes de se deitar, Que lembra daquela. Que fodia sem reclamar. E reclamava sem o poder. E podia. Sem foder. Que chora de saudades dos filhos. Que anda nos trilhos sem trem. E que ainda tem. A vontade. De comprar um quilo de bondade. Talvez de sinceridade, Antes de morrer. De câncer no pulmão. Ou ainda que não. Perecer de morte morrida. “Ai no corida”. Ô vida comprida. Que apenas me causa sofrer. Pagando o preço injusto. A um alto custo. Por apenas ter tentado ser. Algo a crescer. Sem morrer. E agora que sinto. Que ela chega. Devagar e silenciosa como quem rouba. Sinto que preciso comprar. Ao preço justo. Um quilo de alegria. Que minha poesia. Nunca me permitiu ter. Enfim. E por último. Quero um quilo. Daquilo. Que qui-lo. Mas nunca pude ter. Sei que ninguém liga. Para as coisas que eu diga. E fazem figa. Como na sabedoria antiga. Para que eu sossegue. Ou renegue. Tudo aquilo. Com menos de um quilo. Que falei. Que caguei. Aquilo. Com um quilo. Que estraguei. Então como imaginei. Num quadro que nunca pintei. Fi-lo porque o quis. E quem diz. Que é seu o meu retrato. É apenas alguém. A quem nunca me entreguei.

12/04/2024

Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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