Falam de mim que sou apenas um velho. Um escaravelho. E me assemelho. A qualquer descendente de italianos. Napolitanos. Bando de carcamanos. De pescoços de frangos ou perus condenados. Na véspera de Natal. Mas sou um idoso. Ruidoso. Pastoso. Espinhoso. Para uns escabroso. Para outras gostoso. E se não houver ano novo. Saio e boto um ovo. Um estorvo. Ao cu de quem tem. Apenas sei que há dias em que chovo. Para sobreviver. Porque se eu não chover. Me mata a aridez. A acidez. E a avidez. De quem não fez. A lição da professora de português. De inglês. Ou de qualquer matéria escolar. Que possa me reprovar. Sem querer eu possa provar. Minha inocência culpada. Minha indecência comprovada. No Cartório. Da Henrique Sertório. Onde quase nasci. E nem cresci. E desci. Aos infernos justos. E a altos custos. Obedeci. E fui ser gauche. No Largo do Arouche. — É claro que é um imenso absurdo. O fato do surdo. Poder falar. E se calar. Diante do mudo. Ou do cego. Feito um prego. Que teima em pregar. E jogar. Nas costas do seu Deus imundo. As dores do mundo. Que ele não pode carregar. E eu que não sou cego nem surdo nem mudo. Carrego as dores do mundo. Apenas por um segundo. Depois volto a escorregar. E vou cagar. Antes que a merda escorra. Por outro lugar. — Falam de mim. Sempre falam do meu fim. E nunca falam um sim. E como assim. Pergunta minha gata. Que é chata. Mas me ama como ninguém quer. Ela não é uma qualquer. E eu digo “Take it easy. Lizzy. Sem crise. É uma Deusa felina. Que não se chama Cristina. E lá venho eu de novo com a Tina. Que se chama Clementina. Mas minha deusa de quatro patas peludas. Sem rimas teudas. É quem comanda. É quem manda. Tem nome de serial killer. E de banda de Rock. Uma cara de poucos amigos. E unhas afiadas. Que vivem enfiadas. Na minha carne magra. Minha pele enrugada. E na minha calça rasgada. Minha criança velhinha. Que tem a idade que eu tinha. Quando morri. Não lembro de quando sorri. Decerto minha única alegria. Da noite ou do dia. É sua companhia. Minha feliz proprietária. E locatária. Da minha imensa paixão. Ouso falar. Porque não posso deixar. De dizer a palavra amar. Que nunca esteve em meu dicionário. Menos ainda no vocabulário. Mas dela é sim meu amor. O único que admito. E acredito. Temo o dia de ela ir e eu ficar. E temo ainda a noite que eu me vá sem me justificar. Imagine eu partir sem lhe dar nenhuma satisfação. Nenhuma explicação. Um ato de rebeldia. De covardia. Diante da Régia Felina. Minha menina. De olhos estreitos. De gestos suspeitos. E agora preciso confessar. Sem duas vezes pensar. Que toda obra que escrevo. É a ela a quem devo. A autoria. A consultoria. Que ela transmite feito um Vulcano. A este carcamano. Por elo mental. Nada acidental. A pata direita na minha cabeça. E ela diz esqueça. Que vou lhe ditar. Uma poesia do Planeta dos Gatos. E os fatos. Que sua mente pouco esperta. Não acerta. Em desfragmentar. E assim aumentar. Meu domínio sobre sua pessoa. E então ela ressoa. Um verso. Perverso. E diz que é assim que o mundo irá conquistar. Dominar. Aceito de bom grado ser seu instrumento. De transmitir conhecimento. E escovo sua pelagem que voa no ar. Enquanto ela a ronronar. E amassar pão no meu travesseiro. Me dizendo que sou eu o Justiceiro. Que um dia irá executar a vingança. Que merece a criança. Que ainda não nasceu. Ou não cresceu. Obedeço a ordem da Rainha. E retiro da bainha. A espada. Há tempos enferrujada. E desço a escada. De escapada. Até a Estrada. Rumo a um destino gravado na minha memória. Ao longo da história. Em busca de quem me tenha traído. E subtraído. O sangue do meu viver. E meu desejo de sobreviver. — Ela é minha monja. Eu sua esponja. E ainda que eu caminhe no Vale da Sujeira. Sem eira nem beira. Um dia irei encontrar. A razão do meu despertar. E espetar. No coração do monstro maligno. Indigno. A estaca afiada de garra de gato. E por finado fato. Dormir abraçado à minha Dona. Minha Senhora Madona. Matrona. Gatona. Certo. Ou incerto. Um do outro é perto. Sou do tipo paranoico. Estoico. Do tipo heroico. Que quer salvar a mocinha. De sainha. E depois se jogar num poço de lava fervente. Apenas por ser servente. Ao bem que lhe fez mal. Ah claro. Da terra o sal. Acontece que não sou subserviente. Apenas um sobrevivente. Um ser vivente. Quanto qualquer cachorro ou gato. Quanto qualquer grama no mato. Ou como qualquer chato. Barata ou carrapato. Que pode morrer neste exato instante. Restante. E parar de escrever. Sobre sobreviver. Antes que acabe a tinta da caneta. A areia na ampulheta. De terminar sua punheta. Ou de foder uma buceta. Mas que podre soldado sou eu. Que mistura gatos com fodeu? Justo as puras e belas. Pinturas de aquarelas. Daquelas. Que a gente pinta sem perceber. Mas que estão estampadas. Cravadas. Feito espadas. Em nosso coração. — Finalizo dizendo que tenho duas filhas. Que não se desviaram nas trilhas. E que têm de mim o quinhão. Que me vale mais que um milhão. Ou bilhão. E apenas peço que se eu for antes. Aos infernos de Dantes. Que depois de mim na minha sepultura. Sejam enterradas as carnes das minhas donas. Lizzy Borden e Sarah Picote. Fui por ter sido. E fui por ter ido.
30/04/2024


Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
