Agora quero escrever. Para cego ver. E quem sobreviver. Um tratado sobre poesia. Que sempre rimo com hipocrisia. E que direito eu tenho. Pergunta o leitor. É que de onde venho. Qualquer eleitor. É sempre um ferrenho. Respeitador. Mero espectador. Então falar de poema. É sempre um problema. Que tenho que enfrentar. Por isso preciso enfeitar. Usar palavras bonitas. Que serão escritas. Apenas para impressionar. E impulsionar. Porque no fim ninguém vai entender. Então tenho que aprender. Sem me surpreender. A esconder. Aquilo que não sei responder. E falar do jeito que prefiro. Quando respiro. E quando retiro. E me refiro. A retirar. Sem reiterar. Aquilo que eu nunca disse. Ou contradisse. Que coincidisse. Ou mesmo até iludisse. Quem quer que vá. Ou será. — E esse tal tratado. Retratado. Não será nada recatado. Nem atado. A qualquer conceito fugaz. Ou sagaz. E quando eu falo em conceito. Penso direito. No reto e estreito. Preconceito. Sobre tudo o que é feito. Por um sujeito. Que não atende pelo nome de poeta. Mas por profeta. Sou mesmo um dispoeta. Que nunca diz. Sobre aquilo que eu fiz. Sem nunca ter “fazido”. Ou trazido. Cru ou cozido. Frito ou assado. Com leite condensado. Porque todos sabem que a poesia. É uma heresia. Da burguesia. Apenas uma mera cortesia. Onde a sinestesia. É apenas analgesia. Então faço uma metapoesia. Como disse o poeta Gullar: “O que o poeta quer dizer no discurso não cabe e se o diz é pra saber o que ainda não sabe.” E tenho comigo ainda nesta minha idade. Que poesia é coisa da puberdade. Nunca da senilidade. Porque como disse Paulo que não é o apóstolo. Mas escrevia acróstolo. Que “a poesia é fenômeno etário”. Jamais hereditário. Podendo ou não ser autoritário. Mas nunca identitário. Porque há sempre na poesia o destinatário. Acionista majoritário. Que é a porra da emoção daquele que a lê ou escuta. Sempre um merda de um filhodaputa. Que nunca o poeta entende. E que sempre pretende. Ser maior que a própria ode. E se sacode. Enquanto pode. Parecendo até um rabo de bode. Então fico aqui vaticinando. Burilando. Bolinando. E porque não pugnando. Contra a minha vontade de ir cagar. E apagar. Aquilo tudo que estive a divagar. Devagar. Sem conclusão chegar. Então eu agora dispenso. O que repenso. E estou sempre propenso. A ter suspenso. Meu direito de pensar. Apenas para compensar. O tempo perdido. Dispendido. Falando sobre tantas coisas tortas. Em obras-mortas. Uma poesia sem nada de quietude. Sempre rude. Mas foi o que sempre pude. Vaticinar. Raciocinar. E penso agora de um outro tratado que não é de Tordesilhas. Mas dividiu o mundo em ilhas. Ou em trilhas. Por onde putas e filhas. Falam maravilhas. Do poeta da Academia. Que sempre temia. Quando da epidemia. Tratada com infodemia. Com a Ciência aviltada. Humilhada. — É… Talvez eu escreva então um tratado. Sobre como ser maltratado. E distratado. Por filho malcriado. E ser despejado. Como filho indesejado. Então prefiro tratar. Do meu próprio altar. Do que contratar. E maltratar. Minha própria individualidade. E minha liberdade. De ver a humanidade. Como um saco de vaidade. E assim pensando de verdade. Penso que poesia é apenas falsidade. Cuja única veracidade. Está na necessidade. De ser mentirosa. Insidiosa. Maldosa. — Lembro agora como era gostosa. Aquela baiana. Morena tropicana. Que se achava americana. E sempre lia o Quintana. E era tão bacana. Quanto sacana. Quase uma decana. Em putaria. Em baixaria. Que toda hora queria. Porque queria. Fazer a alegria. Da macharia. Achando que sempre poderia. Ter um macho por montaria. Que sempre a poria. Num pedestal. De brilhante metal. Até que um dia. Por luxúria ou covardia. Resolveu que queria fazer poesia. E achava porcaria. Tudo o que eu escrevia. Então rasguei meus versos. Que eram tão diversos. Quanto controversos. E que ela chamava de perversos. Depois fui embora por uma estrada. E no final da qual tinha uma escada. Que eu não sabia. Se subia. O se descia. E assim apenas crescia. O ódio que eu sentia. E que batia. Direto no meu coração. Causando comoção. — E assim termina outro caso. Jogado ao acaso. No ocaso. Da minha porca existência. Então quem sou eu para escrever qualquer tratado de merda. Quando aquele que me mim herda. É uma lesma lerda. Que me deserda? — Paro agora de escrever. Pensando apenas em sobreviver. Ao menos até amanhã. De manhã.
09/05/2024


Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
