Eu, que fui criança nos anos 1960. Adolescente nos 70. Adulto, casado e pai nos 80. Tudo isso debaixo da lazarenta Ditadura Militar. Jamais admitiria qualquer espécie de tentativa de retorno a essa merda. Jamais bateria palmas para aquela gangue de farda, quepe e coturno. Como também não aplaudo o “outro lado”, das dilmas, genuínos e outros bandidos, assaltantes e sequestradores, assassinos tanto quanto os primeiros. Portanto, nunca bati palmas para o Capitão Amérdica comemorando o 31 de Março, que de fato foi 1º de Abril. Que mente doente aplaudiria e quereria o retorno daquilo? Da censura, dos sequestros, dos assassinatos? Ninguém de consciência sã. Por outro lado, tenho nojo do que foi feito nos últimos anos. O estupro da Democracia. A Ditadura do Judiciário. Lex Luthor reina. E onde está o Supermem. E o Batmem? Cagando nalgum banheiro de Gotham. É, misturo Marvel com DC, eu sei. Mas isso não tem a menor diferença. Supermeim é muito chato. Muito boiolinha. Cheio de frescura. Uma piada imortal, né?! Como confiar num sujeito que apenas troca de roupas numa cabine telefônica, tira os óculos e ninguém reconhece? Prefiro mesmo o Batima. Porque apenas ele poderia dar um jeito nessa pocilga tropical que chamamos Brasil. Onde até o gentílico é uma bosta. “Eiro” é profissão: sapateiro, costureiro, padeiro. E nós podemos ser tudo, menos uma profissão. Seríamos pelo certo “brasilianos”. Mas, preferimos a piada. Jamais seremos nada. Nunca seremos um povo. Sempre um aglomerado de pessoas. E nem estou falando dessa merda de nacionalismo. Patriotismo. Nada desses ismos. Como dizia o velho cancioneiro panque popular “Nenhuma pátria me pariu!”. Nem a puta que o pariu. Não sou filho de uma puta, e de nenhuma luta. Luto por mim. Por mim é o luto. E o culto. A grande merda feita pelo Capitão Amérdica foi aquela estupidez de “… Deus Acima de Todos”. Que merda ele queria com aquilo? O ateu pergunta. E eu, o ateu responde: fodeu para mim. Eu sou minha pátria, meu país, minha terra. De mim por mim e para mim, sou o Rei, o Ministro e o Tribunal. Nenhum filhodaputa tem direito a invadir meu território. Neste mando eu. Que direito alguém acha que tem sobre mim? Se eu quiser chutar a parede, dormir na rede, chupar uma buceta, fumar maconha, e até morder a fronha? O único limite de território é que está fora. Ou seja: qualquer coisa que prejudique, que invada outro território. Mas aquele que é dono e senhor, e portanto preza pelo seu próprio território, jamais terá tempo nem porque avançar sobre outro. Esse é o único segredo. Nenhuma revolução perdura pelo coletivo, que é uma ficção. Não existe nada a não ser o Indivíduo. O resto é tudo construção religiosa e/ou ideológica. Ou seja: conversa fiada. Papo furado. Pega trouxa. Enganação. Sou mesmo um sujeito estranho. Minha mãe dizia, ainda nos anos 1960, quando meu pai aplaudia a Ditadura. E minha mãe escovava a dentadura. Ah, claro, meu pai odiava o Prestes, e talvez por isso colocou em mim o mesmo nome dele. Ah, a natureza humana, com suas vinganças e suas falsas lembranças. Ah, e ele era Getulista, de nome na lista. Feito uma certa tribo, que aplaude a ceeletê, que no fim só fode quem trabalha. E Adhemarista, o criador do “Rouba Mas Faz”. E a ripa quebrava nas minhas costas, o chinelo estalava nas pernas, e a mão na minha boca. E lia os gibis do Supermeim, aquele boiolinha de óculos, que nunca comeu a Lois Lane. As más línguas dizem que o Batimam comia o Robin, ou era comido por. Mas, foda-se, o Morcego não tinha poderes vindo de outras galáxias, era um humano com vontade, disciplina e coragem. Eu só fiquei com a vontade. Por isso nunca fui super-herói. E agora, enquanto o Capitão Amérdica lança seu escudo bíblico, enganando os otários, Lex engraxa a careca e as botas, coloca sua capa e sai voando pela janela da Sala da Injustiça, o Inominável, depois de cinco litros de cachaça, engraxa a cara de pau e sai pela porta, roubando as almas dos pobres, mentindo aos ricos e pilhando a nação. E eu, agora nem mais tenho aquela porra chamada de coração. Só fico aqui lamentando por não ter, para chamar de minha, uma Nação. Então chamo de minha a minha a liberdade de expressão.
31/03/2024


Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
