Quero falar de tripas. Não daqueles que querem que se faça coração. Mas das tripas mesmo. Onde passa bosta. Quero falar de sangue. Não daquele do cinema ou da televisão. De sangue mesmo. Aquele que escorre do meu rosto. Quero falar de estômagos. Mas não daqueles que levam socos. De estômagos mesmo. Aqueles que doem de fome. Quero falar de bosta. Mas não daquela que sai do meu cu. De bosta mesmo. Daquela sai da boca dos políticos. Quero falar de luz. Mas não daquela que é clara. Mas de luz mesmo. Aquela que é um buraco na escuridão. Quero falar de morte. Mas não daquela que é morrer. Mas de morte mesmo. Aquela que não nascer. Quero falar de desejo. Mas não daquele de foder. Mas de desejo mesmo. Aquele de morrer. Quero falar de putas. Mas não daquelas que chupam pau e dão a buceta por dinheiro. Mas de putas mesmo. Aquelas que se vendem à ditadura por uma nova dentadura. Quero falar de Deus. Mas não daquele dos judeus, dos cristãos e dos ateus. Mas de Deus mesmo. Aquele psicopata vaidoso que adora um espelho. Então, quero também falar do Diabo. Mas não daquele de chifres cheirando enxofre. Mas do Diabo mesmo. Aquele que não é o pai do Rock. Quero falar da fome. Mas não aquela coisa sem nome de antes do almoço. Mas de fome mesmo. Aquela que só sabe quem realmente passou. Quero falar amor. Mas não aquele de quem sofre. Mas de amor mesmo. Aquele… Bem, aquele que não conheço. Quero falar de ódio, então. Mas não aquele que se sente quando nos pisam no pé. Mas de ódio mesmo. Aquele que não aceita perdão. Então, quero falar de perdão. Mas não daquela invenção de cristão. Mas de perdão mesmo. Aquele que apenas hipocrisia. E por falar em hipocrisia, quero falar de poesia. Mas não daquela que brota da paixão. Mas de poesia mesmo. Aquela dos mortos sem caixão. Quero falar de felicidade. Mas não daquela de sorrir. Mas de ser feliz mesmo. Aquele de doer. Quero falar de porra. Mas não daquela que é jorrada na cara de atrizes pornôs. Aquela porra que gera filhos que nos esquecem. Quero mesmo é falar das tábuas. E das minhas duras e árduas. Condecorações. Que eram aplicadas como se fossem orações. Frutos de nobres corações. No auge de suas emoções. Mas como no inferno das boas intenções. Eram repletos de decorações. Flautos desejos de vinganças. Como se fossem meras esperanças. Quimeras de crianças. Com suas ingênuas danças. Mas falo de ripas lascadas. Pelas minhas carnes mastigadas. E que me estão até hoje engasgadas. Como torturas instigadas. Quero falar de pudim, de quindim, de aipim. Mas, como assim? Sim. Quero falar de tudo. Menos de mim. É tão triste falar de mim. Então preciso falar de pão, de anão, de cidadão, e até do não. Falar do não é muito bom. Mas não quero falar do não não. Quero falar do sim, que tem rima com o tal pudim, o tal quindim e o tal aipim. Sim, tem. Ah, quero falar do nada. Não, não quero falar de nada. Ponto final.
28/03/2024


Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.
