Agora preciso fazer outra confissão: sou um açambarcador! Lamento muito dizer, feito um arrependido caçador. Da buceta da puta até o convés do barco. Do rabo da vaca à flecha e do arco. Tudo que me pertence eu abarco. Tomo conta do que me pertence como minoria. Que segundo a comprovada randiana teoria. É meu direito como indivíduo unitário. E não uma abelha tonta num enxame proletário. Portanto não apenas o direito, mas o dever. Enquanto como indivíduo viver. E como forma de sobreviver. A obrigação de a mim mesmo prover. A minha própria necessidade. Declarando guerra a cruel obscenidade. Que quer transformar toda a humanidade. Em seres opacos, cinzentos e sem liberdade. Sou dono do meu próprio território. Mesmo que seja ele meu metrô quadrado de escritório. Ou apenas os limites do meu corpo e minha mente. Minhas propriedades desde que sou gente. O que me torna substancialmente. Um humano não diferente. E assim sendo não dou o direito a nada que deseje. E menos ainda do que enseje. Se apossar de um milímetro qualquer de algo que me pertence. Então assim não tente nem pense. Que dirijo um filme de suspense. Com roteiro nonsense. Porque se faço um filme é de terror. Onde a mais forte cena de horror. Será feita no dia em que algum usurpador. Seja ele um tirano ditador. Ou descabelado imperador. Um homem apenas e tão somente pode se arvorar em ser seu proprietário. Dono, senhor e sócio majoritário. E presidente vitalício do enredo societário. Portanto jamais permitirei nenhum Golpe de Estado. Dentro do meu território incontestado. Sou o General do meu exército individual. Soldado, sargento ou Marechal. E atesto que qualquer ser amaldiçoado. E pelo poder condicionado. Tentar romper minhas linhas. Que são tortas, mas são minhas. Pagará caro o preço da ousadia. E no mesmo dia. Pagará pela covardia. Tenho certificado de propriedade vitalício. Garantido e lavrado em cartório de ofício. E acho melhor tentar invadir um hospício. Do que romper a segurança do meu edifício. Ando armado até meus dentes. Quase todos ausentes. Mas, ah, não tentes. Mandar suas serpentes. A mim pouco importa sua crença política. Sua versão de geopolítica. Travestidas de doença apocalíptica. Porque tenho aversão monolítica. E não hesitarei em barrar-lhe a passagem frente a minha porta. E deixar-lhe a boca torta. Se insistir em adentrar em meu condomínio. Que por direito alienável. É totalmente inexpugnável. E não aceito a entrada de nenhum sócio do Abominável. O homem das trevas Inominável. Nos tempos de dantes. Feito loucos elefantes. Esmagaram meu canteiro. Pisotearam-no inteiro. Me transformaram num triste forasteiro. E transformaram meu país num puteiro. Parafraseando aquele outro poeteiro. Que era rápido e certeiro. — Então fujam enquanto podem. Porque meus cães de guarda latem e mordem. São meus seguranças e têm ordem. Para dilacerar todos aqueles que me incomodem. Seja algum elemento. Que usa boné de Movimento. Ou qualquer outro social excremento. Estejam certos que causarei o mesmo sofrimento. Que em mim provocaram. Quando minhas costas nuas marcaram. E minhas poesias e odes no fogo atiraram. Agora apenas eu tenho a chave do meu próprio Inferno. Sou o barqueiro do rio eterno. Que deságua no mar de fogo. Conduzo o barco e comando o jogo. Não ouse desafiar a minha Lei. Que eu mesmo revelei. E mantenha a distância que estipulei. E imperador de meus domínios a mim mesmo estipulei. — Como disse antes sou um açambarcador. Dono da caça e do caçador. E em defesa de minhas posses eternas. Previno que é melhor ter boas pernas. Para correr quando eu começar a atirar. Até não mais respirar. Não invada meu imponente domicílio. Que para minha defesa uso qualquer utensílio. E já que me forçaram a estar sempre sozinho. Fazendo com que minha sombra fosse o único vizinho. E se ao Nada fui condenado. Tudo posso dentro do meu solitário reinado.
16/05/2024


Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição: 1ª
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500
Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador.

Rimas carregadas da contundência característica do nosso poeta Barata! Verdadeiro terremoto mental poético!
Obrigado, meu caro. Esses textos (foram 100 no total, alguns ainda não publicados) tem mesmo o propósito de serem contundentes. A rima até nem é o elemento maior, mas a forma que achei de pontuar minha narrativa anti-literária.
Décadas de pois desse discurso, o que vemos é um processo de parasitismo coletivista, que não nasceu hoje. O indivíduo que pensa segundo suas ideias é, cada vez, mais algo semelhante a um subversivo. Os adeptos de ideologias coletivistas não desistirão de seus objetivos. Os fatos estão aí para provar.
O texto de base inicial, de Pessoa, tem mais de 100 anos. O filme (A Nascente), uns 80. E o que vemos hoje é a conspurcação de todos os ideais humanos que nos trouxeram até aqui, que foram baseados na individualidade. Mas é claro que aos interesses coletivistas (entendendo-se claramente como esquerdistas) não querem isso, afinal o poder e o valor do indivíduo joga por terra – e na merda – todos os seus frágeis argumentos. Precisam mentir para que os preguiçosos acreditem que nada precisam fazer para ter. Porque Papai Estado (a mais nojenta instituição criada) os proverá. E nessa merda toda, quero saber quem (ou o que) sobreviverá.