Foto: Barata

Vômito de Metáforas | Um Estrangeiro na República Socialista do Araraquaristão

Nasci em São Paulo. A verdadeira Capital Federal. Não é bairrismo. É fato. Tudo ali é decidido. De fato. O direito deixa para lá. Que o direito na Ilha de Vera Cruz. Na Terra de Santa Cruz. Anda um tanto torto. Ou morto. Mas é claro que não nasci na Terra da Garoa. Onde não garoa mais. Por livre escolha. Escolheram por mim ali nascer. Então sou cidadão paulistano na marra. Mas foi o lugar onde nasci. Cresci. Desnaci. Descreci. Decresci. Casei. Descasei. Recasei. Desrecasei. Nem sei. Quantas vezes. E por centenas e centenas de meses. Amei a Metrópole. Megalópole. A Grande Puta. Feito poeta a uma prostituta. Ou um profeta à luta. Ou santo a uma gruta. Filhadeumaastuta. Vendida na feira da fruta. Mas de fato cansei. E demorei. Quase cinquenta anos. E dúzias de planos. Para cansar. Cansaço sempre chega. E quando vem. Ou a gente descansa. E espera des-cansar. Ou então se manda. Sem esperar ninguém mandar. E foi o que fiz. Porque quis. E por um tris. Não vou parar. Em outro lugar. Morada do Sol. Centro do estado. Calor para caralho. Cidade plana. Fim de semana. História que emana. Memórias de infância. A Jacqueline Mirna. Depois Kate Lira. Na Praça dos Nóbregas. “Arrrrrarrrraquara”. E eu. Foi no deu. Vim parar neste lugar. Que chamei de lar. Afinal tinha o Brandão. A Ruth. Os Martinez. Também a atriz de pornochanchada. Até Macunaíma nasceu na toca da arara. Numa banheira na Sapucaia. E tem. Também. A serpente debaixo da igreja. Ou seja. Como for. Teve os Britos. Linchamento. Linchaquara. Vergonha nacional. No início da República. Outra vergonha. O cemitério que é das Cruzes. Mas que ninguém sabe. É dos Britos. E ponto final. Afinal. O que importa é a tradição oral. Não o crime venal. Cheguei. Veni vidi vici? Eu vim. Eu vi. Só não venci. Então descrevi. Escrevi. E vivi. Mas não sobrevivi. Ao holocausto Do ditador de penas. Que apenas. Enriquece. Escurece. Apodrece. E esquece. Que escada que sobe também desce. Cinco trogloditas e uma mulher na praça. Que alguém amordaça. E por desgraça. Ainda apanha. Dos cinco capangas. Do ditador. Do Araraquaristão. Pandemia fraudemia. E o carro de som gritando: “denunciem seus vizinhos”. Que não andam de máscara. Que não conhecem Báskara. Que não ficam em casa. Que querem trabalhar. Querem malhar. Ou apenas olhar. As árvores da praça. Caídas em desgraça. Ou somente respirar. É proibido respirar no Araraquaristão. É proibido pensar. Na República Comunista. Do Araraquaristão. Onde o único artista. É o Brandão. E a turma esquerdista. Do Araraquaristão. Que rima com Paquistão. Mas parece mais Uzbequistão. Antes tinha o trem. Na estação. Agora não tem. Roubaram a linha. Na estação abandonada. Apenas uma cadela molhada. E onde antes tinha Rumo. Agora só mato. E rato. E carcaça de gato. A cidade imunda. Inunda. De merda. A mansão dos urubus. Dinossauros na Voluntários da Pátria. Sujeira na Sapucaia. Sem história no Histórico: museus apenas em horário comercial. Há muito artista. Arte nenhuma. A Casa da Cultura fede carniça. E eu tenho preguiça. De tratar com escritor. Com autor. De batatinhaquandonasceesparrapelochão. Que se julga artista. Mas dá entrevista. Para a televisão. E quer lei do tal Ruanéte. Que parece a Ivete. Usando cinta liga e canivete. E joga confete. No ditador. Incentivo? Porra do meu caralho! Incentivo de cu é rola. Corre atrás. Paga suas contas. Poeta paspalho. Escritor do caralho. Que fala do dentista. Que não quis lhe foder Ou do ditador. Com pinta anarquista. Que rouba e não faz. Há dez mil anos atrás. Não me satisfaz. E eu que escolhi. Estar. Restar. Prestar. Onde não onde nasci. Onde não cresci. E onde desci. Esmaeci. Carrego a pecha de estrangeiro. De cachaceiro. De arruaceiro. E sem carimbo no passaporte. Sem transporte. E sem visto de entrada. Pela estrada. Apenas de saída. Só de ida. Para onde eles não estão. Longe da República Comunista. Do Araraquaristão. Ah… É que na minha idade. Uma cidade. Sem luminosidade. É uma calamidade. E não quero morrer no escuro. Então é mais seguro. Achar outro porto. Antes de estar morto. É ir para longe daquilo que está perto. Não sei ao certo. E tento ser esperto. Tentando fugir. Antes que não possa sair. Por entre as cercas de arames farpados. Dos soldados armados. Que guardam as fronteiras. Inteiras. Da República Socialista. Comunista. Marxista. Stalinista. Edinhista. Do Araraquaristão. Alguém conhece o Cazaquistão? Eu não!

17/04/2024

Do Livro:
Vômito de Metáforas
Barata Cichetto
Gênero: Crônicas Poéticas
Ano: 2024
Edição:
Editora: BarataVerso
Páginas: 248
Tamanho: 20 × 20 × 1,50 cm
Peso: 0,500

Barata Cichetto, Araraquara – SP, é o Criador e Editor do BarataVerso. Poeta e escritor, com mais de 30 livros publicados, também é artista multimídia e Filósofo de Pés Sujos. Um Livre Pensador

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